Mulheres que removem pedras e plantam flores

Não basta garantir o número de vagas, é necessário conferir às candidatas mulheres as mesmas condições, o mesmo espaço político e a igualdade de oportunidades, e não lançar verdadeiras candidaturas fictícias com objetivo único de cumprir a cota imposta pela lei

Teresa Bastos

“Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores.” (Cora Coralina)

Neste dia 08 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher, uma data especial onde em todo o mundo são feitas comemorações e homenagens para estas que na verdade são dignas de serem homenageadas todos os dias do ano. Mais do que uma data comemorativa, o dia internacional da mulher é uma data para refletirmos sobre valores e igualdade entre homens e mulheres.

Segundo dados compilados pela Inter-Parliamentary Union – uma associação dos legislativos nacionais de todo o mundo, o Brasil ocupa o 154º lugar entre 193 países do ranking elaborado pela associação na participação de mulheres na política. A pátria das chuteiras está à frente apenas de alguns países árabes, do Oriente Médio e de ilhas polinésias, com pouco mais de 10% dos deputados federais sendo mulheres, por exemplo. O estudo indica que a participação de mulheres no Parlamento federal brasileiro cresceu 87% entre janeiro de 1990 e dezembro de 2016, passando de 5,3% para 9,9%, superando em 6% a média de crescimento mundial no período. A média mundial subiu de 12,7%, em 1990, para 23%, em 2016. Conforme o estudo, sinaliza-se que o Brasil só deverá alcançar a igualdade de gênero no Parlamento Federal em 2080.

É certo que a legislação tem avançado com edição de normas que visam assegurar direitos e incentivar a participação feminina na política em busca da igualdade representativa de gêneros. Como exemplo, podemos citar a Lei 12.034/2009 que impõe aos partidos e coligações o preenchimento do número de vagas de no mínimo 30% (trinta por cento) e no máximo 70% (setenta por cento) para candidatos de cada sexo. E esse é um bom exemplo de ação afirmativa que objetiva o aumento da participação feminina na política partidária.

Mas não basta garantir o número de vagas, é necessário conferir às candidatas mulheres as mesmas condições, o mesmo espaço político e a igualdade de oportunidades, e não lançar verdadeiras candidaturas fictícias com objetivo único de cumprir a cota imposta pela lei, como vemos acontecer.

O Dia Internacional da Mulher, ano após ano, se consolida como um dia para marcar a luta das mulheres por um mundo mais justo. Que tal em 2018, em vez de mandar mensagens de “Feliz Dia da Mulher” no 8 de março, enviar uma mensagem inspiradora para as mulheres que você conhece?

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Teresa Bastos, 49 anos, nascida em São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos, mãe, dona de casa e aquariana

Homens, sejam do lar com suas companheiras

Não se acomode no papel de limitado

Daniella Freitas (@daniminu)

Dia Internacional das Mulheres. Mil mensagens piegas sobre a força, a delicadeza, a doçura destes seres tão maravilhosos e iluminados. Florzinhas em cima da mesa quando você chega para o trabalho, bombons grátis na saída do restaurante (dessa parte eu gosto bem, continuem). Os engraçadinhos de sempre resmungando “Mas porque não tem um dia do homem?”

Resposta sincera? Porque não precisa.

Eu não vou discorrer aqui sobre as origens da data, tampouco vou me vitimizar como tem virado moda fazer nas redes sociais. Não me sinto nada representada pelas manas que, a meu ver, esqueceram que a gente ainda não tem o básico e se ocupam em lutas que, também a meu ver que fique claro, são superficiais e deveriam ser deixadas para depois.

Pensei em mil temas para tratar, em mil situações que – na condição de mãe de duas meninas – me tiram o sono. Mas quero comentar aqui sobre algo comum e que é totalmente patrocínio do machismo que a gente até mesmo reproduz sem perceber. Por ser algo que reproduzimos sem perceber, acho que é importante ser apontado, porque temos a possibilidade concreta de mudar, sem intermediação de grupos organizados, sem passeatas, sem treta. É a divisão absolutamente injusta (seria melhor dizer absolutamente inexistente) dos cuidados com a casa e com os filhos. Hoje é o machismo que mais me irrita nessa vida.

Vejo mulheres FODONAS, super bem sucedidas no trabalho e que muitas vezes trazem mais dinheiro para casa que os maridos caindo pelos cantos, cansadas, envelhecidas. Motivo: além do trabalho, elas organizam ABSOLUTAMENTE TODA a rotina doméstica. E os maridos? Estão ocupados demais, tadinhos. Trabalhando. Fazendo uma ginástica. Indo ao happy hour, que ninguém é de ferro. Mas “eles não tem jeito com as crianças”, “não adianta, compram tudo errado no supermercado”, “não sabem nem onde fica a lavanderia”.

Daí deriva uma série de outros problemas. A mulher de fato não tem tempo nem disposição nem com quem deixar as crianças para ir ao jantar com o cliente, ou aceitar aquela viagem a trabalho. E então quem passa na frente dela na hora da promoção? O colega que tem uma esposa SUPER MULHER MARAVILHA GUERREIRA. Que está deixando, ela mesma, oportunidades passarem porque “precisa se dedicar à família”. Veja: eu sei que estou descrevendo uma realidade de um grupo social específico, mas tenho certeza, porque não vivo trancada numa bolha, que a divisão inexistente de tarefas, não é “privilégio” de classe social nenhuma. Sei que a moça que trabalha aqui em casa chega na casa dela e vai preparar o jantar, lavar roupa. Sei que o mesmo acontece na família da secretária, da atendente de telemarketing, da professora, da médica.

Mas a boa notícia é que dá para mudar! É fácil! Vou contar como.

Se você é mulher: acredite. Seu marido não é um imbecil. Sério. Ele faz coisas muito difíceis no trabalho dele. Ele é capaz de lavar uma louça, de dar banho em uma criança, de fazer um supermercado. Pode não ficar perfeito aos seus olhos. Pode ser que você faça melhor mesmo (mas amiga: é treino), mas é sempre melhor um trabalho meia boca que você não precisou fazer do que um perfeito que você fez. O cara é bacana, inteligente, tanto que você até casou com ele. Ele consegue fazer o jantar. Vai ler uma revista.

Se você é homem: faça. Não se acomode no papel de limitado. Se empodera! Organiza o cardápio da semana, vai ao supermercado, coloca uma roupa na máquina. Dá um banho no teu filho, é uma delícia e você FEZ essa criança. Só depois não vem fazer o bonzinho EU AJUDO EM CASA. Você mora nessa casa. Se ela tá suja é problema seu. Se não tem jantar é problema seu. Se mexe.

Vamos dar exemplos. Vamos criar crianças que crescem vendo o pai fazendo o jantar enquanto a mãe lê uma revista – e que descem pra piscina com o pai enquanto a mãe lava uma roupa. Que veem o pai e a mãe ficando uns dias fora, viajando a trabalho. Que sabem que podem confiar em qualquer um dos dois, que se sentem seguras com qualquer um dos dois.

(spoiler: minha sogra fez isso nos anos 70 e deu certo)

A gente pode mudar. A gente pode criar uma sociedade mais justa. E igual. Não vamos reforçar o estereótipo da SUPER MULHER MARAVILHA QUE DÁ CONTA DE TUDO. A que preço ela dá conta de tudo? Já pararam pra pensar?

Todos se beneficiam disso. A gente não perde talentos para o tanque de roupa suja, os pais podem ficar mais próximos dos filhos, as mulheres podem ficar menos exaustas (e mais dispostas), as crianças podem ficar mais seguras, sabendo que podem contar com a mãe e o pai pra limpar a bunda delas. Essa senhora da foto participou dos protestos que aconteceram nos Estados Unidos agorinha no começo do ano. Vi essa foto (acima) e pensei que não quero, nessa idade, ainda estar reclamando da injusta divisão de tarefas domésticas. Não quero ser essa pessoa. Vamos não ser essa pessoa?

Mulher

mulher

Muito lentamente a desigualdade entre mulheres e homens vai diminuindo para dar lugar a uma sociedade mais justa e com oportunidades e direitos iguais. O Dia Internacional da Mulher é uma data que mostra que ainda existe um longo caminho pela frente. ​Mas n​ão sou a favor de datas comemorativas como Dia da Mulher, do Índio, do ​N​egro.

Dia de festejar as minorias, lembrar que elas existem e que a sociedade finge se importar com elas. Hipocrisia barata.​ Devo ser muito estranha, porque não gosto de receber parabéns pelo Dia da Mulher. Dá para imaginar eu dizendo a um amigo: “Parabéns, querido, pelo dia do Homem”, e ele gostar? Soa realmente muito esquisito.

Então chega o dia 8 de março e todos lembram que as mulheres são discriminadas, apanham de seus maridos/parceiros, ganham menos do que os homens (e trabalham mais do que eles porque ainda dão expediente em casa), mas merecem uma rosa, um chocolate…

Não, muito obrigada. Nem parabéns eu aceito. Respondo há anos que “sou espada”. É brincadeira, mas é uma forma de dizer que não quero um dia anual para me lembrar que sou mulher. Eu sei disso os 365 dias do ano. Quero mesmo é ser respeitada​!

Martha Esteves, 51 anos, 30 de profissão, jornalista, subeditora do caderno de esportes do jornal O Dia.

Mulheres na Política

Isadora Monteiro

No Brasil Colônia, três mulheres foram Chefes de Estado, entre as quais a célebre Princesa Isabel, responsável pela Abolição da Escravatura e gentilmente apelidada de A Redentora.

Mas, no Brasil República, a mulher foi banida do âmbito político-social. Por isso é impossível falar sobre o assunto sem mencionar a Luta Feminista: foi o começo, a base e a razão de estarmos hoje votando, trabalhando fora, ocupando cargos importantes. Embora a guerra ainda não esteja vencida, nossas precursoras deram um passo largo rumo à tão clamada Independência Feminina.

A conquista mais expressiva dessa fogueira de sutiãs, hoje, é a eleição de uma mulher à Presidência da República. Ainda assim, Dilma Rousseff é apenas a 4ª Chefe de Estado na História do Brasil. Portanto, a participação feminina nas esferas de poder ainda é baixa.

Somos vítimas de violência doméstica e discriminadas no ambiente de trabalho. É um paradoxo gritante, filho de uma sociedade que ainda cultiva um machismo velado, quase invisível, mas incrivelmente presente, resistente. Tanto, que os partidos – cuja base é formada por conceitos patriarcais – são controlados por homens que limitam a participação da mulher nas campanhas. E isto ocorre não apenas na política, mas também nos sindicatos, nas universidades, nas famílias, enfim.

Para mudar esse quadro, faz-se urgente uma reforma partidária. A presença da mulher no Congresso deixou de ser meramente simbólica para ser vital, pois questões relacionadas aos nossos direitos seriam vistas de maneira mais natural e corriqueira. Na verdade, não somente em questões nossas, mas em quaisquer outras, inclusive as econômicas.

Essa presença ferrenha ajudaria a eliminar o imaginário social (senso comum) em torno da mulher, fazendo brotar novos conceitos. Não apenas o perfil de mãe ou dona-de-casa, mas especialmente a de dirigente, de chefe. É injusto limitar nossa capacidade aos cuidados da casa e dos filhos, quando essa responsabilidade é do casal.

A intenção é que um dia não precisemos mais ter uma plataforma só nossa porque já teremos conquistado tudo. E o tudo, é o que os homens JÁ têm.