Homens, sejam do lar com suas companheiras

Não se acomode no papel de limitado

Daniella Freitas (@daniminu)

Dia Internacional das Mulheres. Mil mensagens piegas sobre a força, a delicadeza, a doçura destes seres tão maravilhosos e iluminados. Florzinhas em cima da mesa quando você chega para o trabalho, bombons grátis na saída do restaurante (dessa parte eu gosto bem, continuem). Os engraçadinhos de sempre resmungando “Mas porque não tem um dia do homem?”

Resposta sincera? Porque não precisa.

Eu não vou discorrer aqui sobre as origens da data, tampouco vou me vitimizar como tem virado moda fazer nas redes sociais. Não me sinto nada representada pelas manas que, a meu ver, esqueceram que a gente ainda não tem o básico e se ocupam em lutas que, também a meu ver que fique claro, são superficiais e deveriam ser deixadas para depois.

Pensei em mil temas para tratar, em mil situações que – na condição de mãe de duas meninas – me tiram o sono. Mas quero comentar aqui sobre algo comum e que é totalmente patrocínio do machismo que a gente até mesmo reproduz sem perceber. Por ser algo que reproduzimos sem perceber, acho que é importante ser apontado, porque temos a possibilidade concreta de mudar, sem intermediação de grupos organizados, sem passeatas, sem treta. É a divisão absolutamente injusta (seria melhor dizer absolutamente inexistente) dos cuidados com a casa e com os filhos. Hoje é o machismo que mais me irrita nessa vida.

Vejo mulheres FODONAS, super bem sucedidas no trabalho e que muitas vezes trazem mais dinheiro para casa que os maridos caindo pelos cantos, cansadas, envelhecidas. Motivo: além do trabalho, elas organizam ABSOLUTAMENTE TODA a rotina doméstica. E os maridos? Estão ocupados demais, tadinhos. Trabalhando. Fazendo uma ginástica. Indo ao happy hour, que ninguém é de ferro. Mas “eles não tem jeito com as crianças”, “não adianta, compram tudo errado no supermercado”, “não sabem nem onde fica a lavanderia”.

Daí deriva uma série de outros problemas. A mulher de fato não tem tempo nem disposição nem com quem deixar as crianças para ir ao jantar com o cliente, ou aceitar aquela viagem a trabalho. E então quem passa na frente dela na hora da promoção? O colega que tem uma esposa SUPER MULHER MARAVILHA GUERREIRA. Que está deixando, ela mesma, oportunidades passarem porque “precisa se dedicar à família”. Veja: eu sei que estou descrevendo uma realidade de um grupo social específico, mas tenho certeza, porque não vivo trancada numa bolha, que a divisão inexistente de tarefas, não é “privilégio” de classe social nenhuma. Sei que a moça que trabalha aqui em casa chega na casa dela e vai preparar o jantar, lavar roupa. Sei que o mesmo acontece na família da secretária, da atendente de telemarketing, da professora, da médica.

Mas a boa notícia é que dá para mudar! É fácil! Vou contar como.

Se você é mulher: acredite. Seu marido não é um imbecil. Sério. Ele faz coisas muito difíceis no trabalho dele. Ele é capaz de lavar uma louça, de dar banho em uma criança, de fazer um supermercado. Pode não ficar perfeito aos seus olhos. Pode ser que você faça melhor mesmo (mas amiga: é treino), mas é sempre melhor um trabalho meia boca que você não precisou fazer do que um perfeito que você fez. O cara é bacana, inteligente, tanto que você até casou com ele. Ele consegue fazer o jantar. Vai ler uma revista.

Se você é homem: faça. Não se acomode no papel de limitado. Se empodera! Organiza o cardápio da semana, vai ao supermercado, coloca uma roupa na máquina. Dá um banho no teu filho, é uma delícia e você FEZ essa criança. Só depois não vem fazer o bonzinho EU AJUDO EM CASA. Você mora nessa casa. Se ela tá suja é problema seu. Se não tem jantar é problema seu. Se mexe.

Vamos dar exemplos. Vamos criar crianças que crescem vendo o pai fazendo o jantar enquanto a mãe lê uma revista – e que descem pra piscina com o pai enquanto a mãe lava uma roupa. Que veem o pai e a mãe ficando uns dias fora, viajando a trabalho. Que sabem que podem confiar em qualquer um dos dois, que se sentem seguras com qualquer um dos dois.

(spoiler: minha sogra fez isso nos anos 70 e deu certo)

A gente pode mudar. A gente pode criar uma sociedade mais justa. E igual. Não vamos reforçar o estereótipo da SUPER MULHER MARAVILHA QUE DÁ CONTA DE TUDO. A que preço ela dá conta de tudo? Já pararam pra pensar?

Todos se beneficiam disso. A gente não perde talentos para o tanque de roupa suja, os pais podem ficar mais próximos dos filhos, as mulheres podem ficar menos exaustas (e mais dispostas), as crianças podem ficar mais seguras, sabendo que podem contar com a mãe e o pai pra limpar a bunda delas.

Essa senhora da foto participou dos protestos que aconteceram nos Estados Unidos agorinha no começo do ano. Vi essa foto e pensei que não quero, nessa idade, ainda estar reclamando da injusta divisão de tarefas domésticas. Não quero ser essa pessoa. Vamos não ser essa pessoa?

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Autor: Brasil Decide

Editor-chefe: João Paulo

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