O Brasil foi sequestrado por uma polarização que não disputa modelos e planos de governos. É o poder pelo poder. A rejeição ao outro.
Chegamos ao ápice desse caos que se transformou a política. Os dois principais candidatos que fazem parte dessa polarização simplesmente decidiram não participar de debates na lógica de não arriscar uma má participação, fugir de confrontos e ataques por quem está muito atrás nas pesquisas.
Debates são diferentes de entrevistas. Debates são imprevisíveis e entrevistas são controladas, por mais que o entrevistador encurrale o entrevistado.
É triste, lamentável e cruel com o país. Um desrespeito com o eleitor e quem organiza o debate. O mais triste é o próprio eleitor validando esse sistema, essa polarização do ódio que não acrescenta nada. Pelo contrário, ela afunda ainda mais o país.
Fernando Haddad está prestes de sofrer uma dura derrota nesta eleição. O professor foi ministro da Educação de 2005 a 2012, quando sai para ser candidato a prefeito de São Paulo.
Aproveitando a rejeição de Celso Russomanno e o desgaste de José Serra pela derrota na eleição presidencial para Dilma Rousseff, Haddad acabou virando prefeito. Deu azar no primeiro ano do mandato acontecer as jornadas de junho, sua popularidade que já não estava boa acabou desabando e nunca mais recuperou.
Haddad foi para a reeleição sabendo que seria difícil pela rejeição que tinha, o PT sofrendo impeachment e com a Lava Jato fustigando figuras do partido, inclusive Lula. Mas acabou superando Russomanno e Marta Suplicy. Só que insuficiente para levar a disputa para o segundo turno contra o neófito em disputa eleitoral o tucano João Doria. Haddad perdeu até para votos brancos e nulos.
Para a eleição presidencial de 2018, Haddad topou ser o teste de ferro de Lula. Aceitou ser vice para assumir a candidatura com o indeferimento do então ex-presidente que estava preso. Até que não fez feio. Entrando na disputa no meio da campanha, Haddad foi para o segundo turno catapultado pela força do lulismo contra Jair Bolsonaro, conseguindo mais de 47 milhões de votos. Mesmo perdendo cumpriu a missão de manter o partido vivo.
Com Lula reabilitando seus direitos políticos, Haddad tentou o governo do estado de São Paulo. Chegou a liderar as pesquisas na pré-campanha e no início da campanha, mas terminou atrás de Tarcísio de Freitas nas urnas. Mesmo assim Haddad conseguiu o melhor resultado de um candidato petista na disputa pelo estado paulista desde 2002 e ajudou Lula contra Bolsonaro.
Haddad virou ministro da economia e ficou conhecido como “taxad”. Não queria ser candidato nesta eleição, queria coordenar a campanha do presidente, mas foi convencido a ser candidato para ajudar Lula novamente. Sabendo que seria uma disputa perdida, o objetivo era repetir o segundo turno de 4 anos atrás. O problema é que sem um terceiro candidato competitivo, a missão ficou praticamente impossível.
Se desenha uma derrota que só não será pior que a de 2o16 porque Haddad estava no cargo, mas essa pode inviabilizá-lo como sucessor de Lula. Haddad paga o preço de ser subserviente ao seu líder. Por exemplo, fizeram de tudo para Marília Campos abandonar uma quase cadeira de senadora para uma candidatura ao governo de Minas. Bateu o pé e não teve argumento que a convencesse. Faltou a Haddad um pouco do brio que teve Marília. Coragem para dizer não e pensar mais nele. Na sua carreira política que Haddad nunca teve jeito com seu tom professoral.
A disputa eleitoral no Ceará nesta eleição está repetindo cenários parecidos com eleições passadas, com suas características próprias das suas épocas.
1986: O jovem empresário Tasso Jereissati disputou o governo contra o atual vice-governador e saiu das urnas vencedor, colocando fim ao domínio de poderosos que governaram o estado no período do regime militar.
2006: O governador era Lúcia Alcântara e tentava a reeleição, tinha o apoio de praticamente de todos os prefeitos do interior. Cid Gomes, que tinha acabado de deixar a prefeitura de Sobral, venceu aquela eleição já no primeiro turno. Foi o fim da era PSDB que começou com Tasso quando nem existia o partido que ele ajudou a fundar e o início de um novo domínio que foi a parceria dos Ferreira Gomes com o PT.
2026: são 5 mandatos, sendo 3 consecutivos do PT, o atual com Elmano de Freitas e apesar de ter boa aprovação popular nas pesquisas, a sensação nas ruas contrasta. Não é do nada que Ciro Gomes lidera as pesquisas, só no último Datafolha tinha 19 pontos de vantagem para Elmano.
A política cearense vive de ciclos. Na verdade, a política em geral vive de ciclos. A deste estado tem a peculiaridade de as peças se moverem, políticos de um grupo romperem, formarem outro grupo e derrotar o dominante. É o que acontece nesta eleição. O atual governador pode ter todos os prefeitos do interior e o da capital Fortaleza, mas falta combinar com os russos… No caso os munícipes, os eleitores, a população que enxerga um governador fraco e manipulado.
Pesquisa Atlas para governador do Ceará mostra Ciro Gomes (PSDB) na frente de Elmano de Freitas (PT).
Na pesquisa anterior do mesmo instituto, Ciro tinha 45,8% contra 44,8% do Elmano. Apesar da pesquisa não identificar, o mais provável é a migração de quase todo eleitorado que dizia votar em Eduardo Girão (Novo) para o Ciro após sua saída da dispusta para ocupar a vice-presidência na chapa de Romeu Zema.
Faltando poucos dias para começar a campanha, a missão do atual governador é virar a disputa como ocorreu em 2022. A diferença é que lá o seu nome entrou na disputa na última hora e nessa ele vai tentar a reeleição contra um ex-governador, ex-prefeito da capital, ex-ministro de Estado e candidato a presidente várias vezes.
Ciro não pode se acomodar pelos resultados das pesquisas, ele tem experiência e sabe que não se vence eleição de véspera, agora que o PT vai fazer a máquina girar. Mas largar na frente é sempre melhor.
O estado de Minas Gerais é enorme em território (mais de 800 municípios) e em população (segundo maior colégio eleitoral atrás só de SP), já teve dois presidentes da República que mudaram o país (aqui é independente de achar as mudanças boas ou ruins), JK e Itamar Franco.
“Quem vence em Minas, ganha no Brasil” não surgiu do nada. Desde 1945 apenas Getúlio Vargas, em 1950, não precisou vencer lá para ser eleito presidente e voltar ao cargo. De lá pra cá quem venceu em Minas foi eleito presidente.
Todo esse preâmbulo para mostrar a importância de Minas Gerais e de lá se costura uma aliança com o que tem de pior na atual política brasileira. O fisiologismo e a corrupção temperados por traição política.
Romeu Zema (Novo) deixou o governo após dois mandatos para disputar a presidência e ajudar o vice-governador Mateus Simões na disputa eleitoral. Simões trocou o Novo pelo PSD para ter uma candidatura mais forte, mas seu nome não decola nas pesquisas.
Quem lidera e com certa folga é o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). Cleitinho hesitava em anunciar que disputaria o governo, o que irritou os caciques do partido dele. Farejando uma oportunidade, a federação União Progressista (União Brasil + PP), junto com o partido do senador, está articulando a candidatura de Marcelo Aro, que foi secretário do governo Zema.
Cleitinho diz que está no prazo que deu para decidir se seria candidato e só não decidiu antes por problema familiar, mas agora garante que só não é candidato se não derem legenda a ele. O ponto é que se arma em Minas uma união de forças que junta a nata do fisiologismo político de olho na disputa por poder em Brasília.