O Itamaraty sob Ernesto Araújo caminha para o isolamento

Gustavo Barbosa (Twitter: @ogustavofb)

No mundo em que vivemos as pessoas estão cada vez mais interligadas, e naturalmente os países também. As relações internacionais do mundo contemporâneo prezam, em grande maioria, pelo multilateralismo que visa aproximar cada vez mais os países, permitindo melhores acordos e maior segurança para o planeta.

Acontece que desde junho de 2016, quando os britânicos clamaram pela saída do Reino Unido da União Europeia, o mundo passou a experimentar uma onda de países insatisfeitos com a política de portas abertas decidida por grupos até então predominante no cenário global. Depois do Brexit veio a Polônia e Itália repudiando as políticas migratórias predominantes, os Estados Unidos de Trump com severas críticas à entrada desordenada de imigrantes ilegais e às organizações internacionais com seus acordos comerciais injustos, e por último o Brasil de Bolsonaro com discurso antiglobalista. Esse discurso, entretanto, parece estar com os dias contados.

Com a vitória de Joe Biden nos Estados Unidos, a maior potência do mundo deve voltar a liderar políticas globais de combate às mudanças climáticas e a facilitação da entrada de imigrantes. Na Itália, o atual primeiro-ministro também prometeu flexibilizar as leis migratórias. No Brasil, se depender de Ernesto Araújo, seguiremos sem muitas mudanças na política externa.

Sob seu comando, o Itamaraty obteve poucas vitórias até aqui. Destaca-se a melhora da relação comercial com a Índia, um país em ascensão que até então tinha um comércio de 7 bilhões de dólares ao ano com o Brasil, e agora trabalham para dobrar este valor até 2022. Além disso, o enfrentamento à Venezuela, a busca pela entrada do nosso país na OCDE e a isenção de vistos para entrada de turistas de diversos países foram medidas positivas para melhorar nossos acordos comerciais e ampliar o até então baixo número de visitantes estrangeiros que vem ao Brasil. Mas, para um país da nossa dimensão, é pouco.

O Brasil, devido ao seu tamanho e influência por ser o país mais industrializado da região, tem o dever natural de ser um líder dentro da América Latina. Infelizmente, isso não vem acontecendo. Sem nenhum acordo comercial significativo com países latinos, assistimos o Itamaraty de Ernesto Araújo, por questões ideológicas, fazer o Brasil romper relações com a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribe (CELAC) que contava com 33 países, e pouco fez para evitar que a Argentina se retirasse das negociações do Mercosul, enfraquecendo o bloco e permitindo que os argentinos se aproximassem cada vez mais de Pequim.

Além disso, há um impasse ocasionado pelo Brasil no acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia que ocorre por conta das políticas ambientais do governo brasileiro. Os dois blocos ainda buscam garantias de que o Acordo de Paris será respeitado pelo Brasil para certificar esse que poderá ser o maior acordo comercial do mundo.

O Ministro Ernesto Araújo terá em 2021 a missão de aproximar Joe Biden de Jair Bolsonaro, e para isso acontecer ele terá que mostrar ao novo governo americano que o Brasil tem compromissos com a pauta ambiental. Com Bolsonaro, que nunca teve que lidar sobre esse tema na Era Trump, Ernesto terá que ser um verdadeiro diplomata para fazê-lo entender que a relação com os Estados Unidos está muito acima da relação do Presidente com a família Trump.

Sob a ótica de Cada um por si, o Brasil se apequena cada vez mais na América Latina ao não priorizar o fortalecimento do Mercosul, desprezar a diplomacia com a Argentina – um grande aliado histórico – por divergências ideológicas e segue com dificuldades de melhorar sua imagem no mundo devido à falas polêmicas de Ernesto Araújo e o Presidente Bolsonaro, além da falta de compromisso com políticas ambientais mais severas para conter as queimadas na Amazônia. Este modelo de política externa, adotado pelo atual governo sob um cenário até então favorável, entrará de vez em declínio com a chegada de Biden ao poder.

É possível se readequar no novo cenário global, mas a verdade é que a atual gestão do Itamaraty não parece estar disposta e muito menos preparada para isso.

Mais uma dos “templários” do governo

Ler o slogan de campanha extrapola do patriotismo para o proselitismo político ideológico

Ernesto Araújo, Damares Alves e Ricardo Velez Rodriguez, além do Assessor Especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, todos capitaneados por Eduardo Bolsonaro sob as bençãos de Olavo de Cavalho e Steve Bannon, formam a ala ideológica do governo do presidente Jair Bolsonaro e em um período curto já provocaram polêmicas inúteis, desnecessárias e desgastantes para o governo (algumas forçadas pela imprensa).

A última veio por intermédio do Ricardo Velez, e pra mim a mais grave, recomendando que as escolas públicas e privadas coloquem os alunos para cantarem o hino nacional e leem um pequeno texto enviado pelo MEC com o slogan da campanha de Bolsonaro – Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Não para por aí. O ministro quer que as escolas gravem e mandem para o ministério.

Os alunos cantarem o hino nacional resgatando essa tradição não vejo problema e é salutar para o espirito patriótico há muito perdido. Agora, ler o slogan de campanha extrapola do patriotismo para o proselitismo político ideológico, o que o ministro diz lutar contra a doutrinação ideológica nas escolas. Ou seja, o ministro está traindo o Movimento Escola Sem Partido ou é contra a doutrinação de esquerda e a favor da doutrinação da sua ideologia.

Essa “recomendação” é ilegal e imoral. Mais um desgaste desnecessário no momento que todos no governo deveriam estar focados na batalha pela reforma da Previdência, no pacote anticrime de Sérgio Moro. Mas os ministros chancelados por Olavo de Carvalho preferem focar em guerra ideológica de olho em um projeto de poder muito parecido com o projeto de poder do PT.