Entrevista: Janaina Paschoal

“O político que fala a verdade está fadado ao isolamento”

Janaina Conceição Paschoal é jurista e se fez conhecida nacionalmente ao assinar o pedido de impeachment contra a então presidente Dilma Rousseff, com Miguel Reale Jr e Hélio Bicudo.

Em 2018 quase saiu candidata na chapa de Jair Bolsonaro como vice-presidente, mas acabou concorrendo a uma cadeira de deputada estadual pelo PSL, conseguindo uma votação recorde (2.060.786 votos) e se tornando a mulher mais votada para o Parlamento brasileiro.

Independente, Janaina não tem medo de criticar quem quer que seja e por sua independência já se desentendeu com Eduardo Bolsonaro e apoiadores fieis do presidente da República.

Nessa entrevista a deputada fala da militância bolsonarista, petista, eleições no Parlamento, Bolsonaro, Doria e 2022, que ela prefere não antecipar o calendário eleitoral. Também conta um pouco da sua experiência nos dois anos na política institucional.

Como analisa o cenário eleitoral para 2022?

Eu prefiro deixar 22 para 22. Não sabemos quem estará vivo! O cenário atual é ruim, muitos políticos personalistas, com a cabeça no futuro. A última live de Bolsonaro mostrou isso, ele só pensa em reeleição. Doria só pensa em ir para o Planalto. É triste!

Mas, na sua visão, quem seria o rival mais forte de Bolsonaro ou não tem?

Não vejo um rival com condições de enfrentar Bolsonaro. Moro até tinha, mas, ao aceitar fazer consultoria para empresas envolvidas na Lava Jato, ficou com a imagem abalada. Ademais, ele se nega a debater outras pautas, para além do combate à corrupção. Um candidato à Presidência não pode ser monotemático.

Como analisa o governo João Doria e o próprio governador?

O Governador têm boas pautas. Eu sou uma defensora do Estado mínimo. Mas ele está muito mal assessorado. Já cheguei a pensar que os que se dizem aliados querem derrubá-lo. Fizemos a Reforma da Previdência. Era necessária! Eu consegui uma alíquota menor para quem ganha menos. Pouco tempo depois, ele baixou um Decreto descontando justamente dos aposentados que ganham menos. Uma loucura, sob todos os aspectos! Por essa e outras, perdi a confiança no governo.

Mesmo sendo deputada estadual, a senhora é reconhecida nacionalmente, pretende declarar apoio a algum candidato a presidente da Câmara e do Senado?

Eu declararei apoio se houver um bom candidato. Se não houver, ficarei calada. As eleições para Presidência das Casas Legislativas deveriam contemplar o debate de propostas. Mas isso não existe, os candidatos só prometem distribuir cargos. É uma vergonha! A Alesp é prova disso. PT e PSDB dividem cargos há décadas. Um nojo!

A deputada sofre críticas e ataques de bolsonaristas, em um passado recente de petistas. Qual o lado pega mais pesado?

Os petistas são mais sofisticados no mal, muitos foram buscar seus títulos acadêmicos. Atacam de forma dissimulada. São piores, sem dúvidas. Os Bolsonaristas são tão grotescos, que ficam gritando na janela do gabinete, parecem crianças ensandecidas. Os ataques petistas também são muito sexuais, sempre diminuindo a mulher. Dizem que os direitistas são machistas, mas não foi o que eu senti na pele.

Nesses dois anos de ALESP, o que aprendeu e mudou sua visão sobre o mundo político institucional?

Esses 2 anos de mandato me mostraram que há muita gente bem intencionada na Política, porém sem rumo. Que nenhum partido presta e que o povo gosta de ser enganado. O político que fala a verdade está fadado ao isolamento, principalmente por parte da população. É muito triste!

Janaina discursando da tribuna do Senado Federal no processo de impeachment em 2016

Doria mostrou a Bolsonaro como fazer política na eleição da ALESP

O governador João Doria (PSDB) mostrou ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) como é que faz articulação política

caue-janaina

Deputados estaduais de São Paulo tomaram posse na sexta-feira, 15 (esdrúxulo a posse em SP ser em março). Na eleição da mesa diretora para o biênio 2019-2020, Cauê Macris (PSDB), Janaína Paschoal (PSL), Daniel José (NOVO) e Mônica Seixas (PSOL) disputaram a presidência. Macris foi eleito com 70 dos 94 votos. Janaína teve os 15 votos do seu partido mais o voto do Arthur do Val (DEM). Daniel e Mônica tiveram 4 votos cada. A “nova política” tem muito o que aprender com a “velha política”.

Não adianta gritar e acusar acordos políticos legítimos de antiéticos, como fez a turma do PSL. Em uma democracia não se faz política sem acordos e a disputa eleitoral encerra-se com a apuração dos votos no dia da eleição. O governador João Doria (PSDB) mostrou ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) como é que faz articulação política e construiu uma grande base parlamentar para reeleger Cauê Macris. Aliás, Doria é o “não sou político, sou gestor” mais político.

A ideologia não pode ser barreira para conversar e até entrar em acordo com históricos adversários, como o acordo entre PSDB, PT e Democratas no preenchimento das vagas no comando da ALESP. Quem trata rival político como inimigo mortal democrata não é. E acredito que Janaína e Arthur são democratas, mas precisam deixar esse puritanismo, esse denuncismo de rede social e não judicializar questões do parlamento se pretendem deixar algum legado na política.

A democracia é tolerância entre diferentes e a política é diálogo. Sem diálogo não tem política, sem política não tem democracia. Não é por ter recebido milhões de votos ou por ter um canal no Youtube com milhões de inscritos que automaticamente você ganha direito a sentar na janelinha. Senta e aprende como jogar o jogo da política real, aspira.

Janaína Paschoal deu o recado

Janaína Paschoal seria uma vice que talvez deixaria Bolsonaro mais palatável para quem o considera extremista. Resta saber se um vai aceitar o jeito do outro.

Janaína Paschoal ganhou as manchetes ao discursar na convenção do PSL, que oficializou a candidatura de Jair Bolsonaro a presidente. Sem pedir aplausos, Janaína fez um discurso de aproximadamente 20 minutos contundente e a parte que ganhou as manchetes foi o alerta nos seguidores de Bolsonaro. Os mais fanáticos que excluem quem não declara apoio a Bolsonaro. Quem não está com Bolsonaro é “esquerdista”, “socialista fabiano” ou “isentão”.

Janaína Paschoal ganhou fama de amalucada ao criar um perfil no Twitter. Ela já recebia crítica e ofensas por ser co-autora do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Por seu jeito de usar a rede social virou chacota em alguns episódios. Mas de doida a Dra. Janaína não tem nada. O discurso foi lúcido, agressivo no tom certo com as mazelas das instituições brasileiras, coroando com o “puxão de orelha” nos mais fanáticos do fã-clube e apoiadores do candidato que deseja ter a doutora como companheira de chapa.

Obviamente, os fãs e apoiadores extremistas não gostaram e provavelmente acusarão Janaína de ser um “cavalo de troia da esquerda”, justo ela que se considera de direita, conservadora e cristã. Há uma turma que afasta quem tem divergências com Jair Bolsonaro, mas não descarta como uma futura alternativa de voto. Para os reacionários ou você é Jair acriticamente, ou não passa de um comunista que tem que ficar bem longe.

Janaína Paschoal seria uma vice que talvez deixaria Bolsonaro mais palatável para quem o considera extremista e ajudaria a tirar um pouco a imagem de machista entregando a vice-presidência a uma mulher. Resta saber se ela vai aceitar o convite e, mais importante, se Bolsonaro e sua trupe aceitarão o jeito da advogada.