Eleições no Uruguai: Esquerda perde(rá) seu “principado”

Daniel Martínez teria que conseguir mais de 90% dos “votos observados”

No primeiro turno das eleições uruguaias realizado em outubro, Daniel Martínez (FA) terminou na frente de Luís Lacalle Pou (PN), por 40% a 28%. Ernesto Talvi (Colorado) teve 12% e Guido Manini (Cabildo Abierto), 10%. Com migração de votos do candidato do partido Colorado e do oficial do Exército reformado para Lacalle Pou, a tendência é de vitória do candidato de centro-direita impondo uma derrota para a Frente Ampla, de esquerda, que governa o Uruguai desde 2005 com Pepe Mujica e o atual presidente Tabaré Vázquez se revezando.

O Uruguai foi às urnas para o segundo turno presidencial no último domingo, 24. Em uma eleição bastante disputada Martínez surpreendeu conseguindo mais votos que indicavam as pesquisas antes do dia da eleição – pesquisas de boca de urna já previam um empate técnico. Com uma diferença de apenas 1,2%, Lacalle Pou obteve 1.168.019 votos (48,71%) e Martínez conseguiu 1.139.353 votos (47.51%). Lacalle Pou se declarou vencedor e Marínez, não admitiu a derrota. O candidato situacionista ainda tem esperança de uma virada muito improvável e a deposita nos chamados “votos observados”.

No Uruguai existe a possibilidade do voto fora da sua zona eleitoral para idosos, pessoas com deficiência, essa apuração é mais lenta por depender de uma verificação maior. Há 35 mil eleitores nessa categoria. Ou seja, mais votos do que a diferença entre os dois candidatos que foi de 28.666 votos. Daniel Martínez teria que conseguir mais de 90% dos “votos observados” para uma virada que fatalmente levantaria suspeita. A probabilidade é muito pequena. Mesmo assim a Corte Eleitoral do Uruguai espera a conclusão da apuracão desses votos para oficializar o resultado.

Faz sentido a cautela e o preciosismo. Disto isto, é temerário se lembremos da Bolívia e toda a confusão que foi provocada pelo apagão de horas durante a apuração de lá. Até o domingo da eleição as urnas mostravam um segundo turno entre Evo Morales e Carlos Mesa. Depois dessa pausa injustificável voltou com resultados na medida para Morales ganhar um quarto mandato ilegalmente já no primeiro turno. E a Bolívia entrou em convulsão social levando a renúncia do presidente e todos na linha sucessora depois de pedido das Forças Armadas para que Evo renunciasse, porque os militares se recusaram a reprimir o próprio povo revoltado e fazendo coisas bastante reprováveis sob o comandado do extremista Luis Fernando Camacho.

A situação no Uruguai é diferente da Bolívia. Não houve uma injustificável parada na apuração e esta já foi concluída. Também não tem até agora denúncias graves de fraude, como aconteceu na Bolívia, apenas boatos de parte a parte das militâncias. Uruguai tem uma sociedade civilizada um pouco acima da média dos vizinhos sul-americanos. Mas todo cuidado é pouco porque os ventos não são favoráveis e a América do Sul tem em seu passado fantasmas de golpes e autoritarismo que resolveram assombrar os tempos atuais.

Confirmada a vitória da oposição, o novo presidente vai ter que formar uma coalizão com outros partidos para ter maioria no Parlamento. No Uruguai existem 99 deputados e 30 senadores. A Frente Ampla elegeu 42 deputados e 13 senadores, Partido Nacional, de Lacalle, obteve 30 deputados e 10 senadores; Colorado (13/4) e Cabildo Abierto (11/3). Outros partidos elegeram 3 deputados.

Luis Alberto Aparicio Alejandro Lacalle Pou, 46, é filho do ex-presidente Luis Alberto Lacalle Herrera (1990-1995). Foi deputado e atualmente ocupa uma cadeira de senador. De perfil moderado, é conhecido pela tendência liberal-conservador sendo colocado como centro-direita. Sua vitória cada vez mais próxima muito se deve aos problemas na segurança pública e o baixo crescimento econômico do Uruguai, um país com população abaixo de 4 milhões de habitantes. Nos 15 anos de governos da Frente Ampla políticas mais progressistas como legalização da maconha e casamento gay são reconhecidas mundialmente e o próprio Lacalle Pou se comprometeu a não revogá-las.

*

É impossível falar de eleições dos nossos vizinhos – todos eles – e não lembrar que aqui um grupo questiona a segurança da urna eletrônica que virou referência de modelo para o mundo pela sua segurança e agilidade na apuração em todas as eleições, que desde 1996 não houve um caso de denúncia de fraude, só teorias que não param em pé. E está sendo reforçado pelo sistema biométrico. Quem alimenta essas teorias é o grupo político que está no poder e venceu a eleição pelo sistema eletrônico. O mais irônico é que esse mesmo grupo que não confia no sistema de voto eletrônico agora deseja que as assinaturas para formalizar seu novo partido seja por assinaturas digitais, um modelo complexo, caro e não é previsto em lei.