Privatização do SUS: controverso e momento inoportuno

Com todos os problemas o SUS é uma conquista da sociedade brasileira inserida na Constituição de 1988

Quando o estoque de ideias ruins parece ter chegado ao fim sempre aparece uma para mostrar que o poço não tem fundo. O decreto do presidente Jair Bolsonaro autorizando estudo para privatizar Unidades Básicas de Saúde – UBS só pode ter saído da cabeça doente do ministro Paulo Guedes e da equipe econômica tarada em cortar programa social, aposentadoria dos velhos e benefício para classe média. Nada de cortar os altos salários e penduricalhos da elite do funcionalismo do Judiciário, Executivo e Legislativo.

A ideia é controvérsia naturalmente e trazem para o debate justo em uma pandemia que o SUS foi importantíssimo para se evitar uma catástrofe. É claro que não cairia bem e logo o presidente correu na rede social para comunicar a revogação, como em outras propostas absurdas e algumas obscenas, deixando em aberto a possibilidade de reeditar.

Guedes tenta impulsionar privatizações paradas não por “acordos políticos”, como disse o ministro, mas por incompetência do governo que acha que é só colocar as estatais no mercado e vender para o primeiro que aparecer por qualquer peço e os serviços serão melhores assim que passar da mão do Estado para iniciativa privada. Não é assim que a banda toca. Para privatizar um bem público primeiro é preciso saber se é necessário privatizar, se a privatização é constitucional, desenhar e debater o modelo e muita negociação no Congresso Nacional.

O Art. 196 da Constituição fala em “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”, permitido saúde complementar – planos de saúde. Pode debater a privatização do SUS ou parte dele em um momento oportuno. Jogar o tema agora, quando o Chile faz o movimento oposto, só alimenta os antiprivatizações. A maioria absoluta vai ficar contra em um momento de crise econômica e sanitária.

Mesmo em tempos normais privatizar a saúde não é o caminho. Com todos os problemas o SUS é uma conquista da sociedade brasileira inserida na Constituição de 1988, a mesma que o líder do governo na Câmara acha que tem muitos “direitos” e quer um plebiscito igual do Chile. No país vizinho a população foi pra rua e votou para enterrar a Constituição da ditadura Pinochet que privatizou tudo, inclusive saúde, educação e Previdência. É o oposto da atual Constituição brasileira. E falar em plebiscito para uma constituinte sem ter tido uma ruptura institucional é golpismo.

Essa discussão do SUS agora tem cheiro e cara de diversionismo, talvez para criar uma cortina de fumaça para esconder o dólar a quase 6 reais e o dragão da inflação mostrando a cara. Ou algo que ainda não veio a público.

PT tem medo da palavra “privatização”

O PT demoniza a palavra “privatização” porque muita gente ainda tem ojeriza das privatizações dos anos 1990, muito disso graças ao PT oposição. As privatizações do governo FHC ganhou o nome de “privataria tucana”, que rendeu até um livro do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, e esse nome foi popularizada rapidamente. No governo, o PT faz um verdadeiro malabarismo para fugir da palavra “privatização”. Tanto é que o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, teve que corrigir seu secretário que disse que o governo municipal pretendia privatizar o Centro de Convenções do Anhembi. Haddad disse que não é bem assim. Seria em regime de concessão. Para o PT, privatização é pecado. Concessão, não.

governo-fhc-dilmaAgora, com caixa zerado, o governo Dilma quer voltar com o modelo de concessões aplicado no governo FHC. É mais uma bandeira histórica que o governo petista guarda no fundo do baú.

Há, também, a questão do brasileiro ser, em sua maioria, estatista. A prova está na pesquisa Datafolha que 62% não quer a privatização da Petrobras, apesar dos escândalos de corrupção e endividamento da empresa.

As privatizações do governo FHC foram boas e ruins ao mesmo tempo. Boa porque expandiu a telefonia para todos. A parte ruim foi o jeito que as privatizações foram feitas. O hoje senador José Serra (PSDB/SP), que na época era o ministro do planejamento, fez um modelo que privilegiou um grupo de empresários e banqueiros, o mercado de telefonia ficou concentrado, um oligopólio, com o serviço sendo um dos que mais recebe reclamações dos consumidores.

Mas ninguém aqui quer reestatizar o sistema e ressuscitar a Telebras. Ocorre que tem que ser dito a verdade e vamos dar às coisas os nomes que elas têm. Foram cometidos erros na privatização do sistema de telecomunicações no governo do PSDB e o PT têm que parar de eufemismos.

Privatização

petrobrasProvocou alvoroço a declaração do candidato a presidente Pr. Everaldo Pereira (PSC) sobre privatizar a Petrobras se eleito. Privatização é sempre um tema polêmico. Mesmo quem é a favor fica com receio de defender. Serra e Alckmin, últimos candidatos do PSDB à presidência em 2002, 2006 e 2010, não defenderam em suas campanhas as privatizações do governo FHC. Aécio Neves esboçou defendê-las.

Pessoalmente, defendo que algumas empresas estatais passem para as mãos da iniciativa privada e que outras fiquem com o Estado. O caso mais emblemático é a Petrobras. Empresa que já é de capital aberto, mas que o Estado detém 51% das ações, ou seja, é sócio majoritário. E acredito que tem que ficar assim.

A Petrobras investe em vários projetos como novas plataformas, refinarias, no Pré-Sal, além de projetos sociais. Empresa pública tem que investir mesmo, não guardar dinheiro em cofre para ter lucro. Mas isso gera crítica dos acionistas minoritários, pois esses investimentos geram dívidas, uma vez que são projetos de longo prazo que afetam seus dividendos. E ainda tem a política de preços defasados para segurar a inflação, porém, aí é política de governo. Se certa ou errada, vai da opinião de cada um.

A Petrobras cuida de uma área muito importante que é a costa marítima brasileira. Uma área bastante extensa, em se tratando de Brasil. Não acho que seja interessante para a soberania do país entregar isso para a iniciativa privada. A Petrobras ajuda a defender os mares do Brasil. Alguns argumentarão que isso é dever da Marinha.  Pode ser, porém o mar não pode ter um “dono”, o “dono” tem que ser a nação. Sobre corrupção e má-gestão, que se prenda quem cometeu crimes e demita quem for incompetente.

Contudo, defendo a privatização dos Correios e da Infraero. Não sou socialista e muito menos comunista. Mas não sou, também, um liberal que sai privatizando tudo. Equilíbrio, essa é a palavra.