A questão na Venezuela há muito deixou de ser política e ideológica. O Governo de Nicolas Maduro é uma ditadura com tudo o que uma ditadura tem de pior (esquerda ou direita). Maduro consegue ser pior que Hugo Chávez, seu padrinho político e mentor. Chávez ao menos tinha habilidade política.
O que aconteceu no último dia de 2017, na Venezuela, extrapola tudo que já aconteceu até aqui. Uma grávida vai tentar receber um pernil do Estado, porque falta até comida na Revolução Bolivariana, resultado de uma política na economia que jogou a pujante Venezuela em uma crise humanitária gravíssima, ela não consegue e se junta com manifestantes, um soldado da milícia armada de Maduro atira matando a mulher. A ditadura Maduro é genocida do seu próprio povo.
Mas o pior é uma parte da esquerda brasileira ainda sair em defesa ou a omissão de outra parte se preocupando com a desigualdade nos EUA.
Muitos riram dos alertas de que o Brasil corria risco de virar uma Venezuela gigante. Só não virou porque o PT não conseguiu – chegou a sondar o Exército para evitar o afastamento de Dilma Rouseff – domar as Forças Armadas assim como o chavismo fez com os militares do país vizinho.
Porém, o Brasil ainda corre o risco dessa ameaça por ter essa gente que passa a mão na ditadura Maduro chegar ao poder na eleição. A retomada do PT ao poder não será de pactos com o capital financeiro, as elites e menos ainda de reconciliação. E, caso Lula consiga escapar dos processos, ser candidato e eleito, vai querer retaliar a quem ele julga perseguidores dele.
O Brasil corre risco de um verdadeiro retrocesso se a esquerda revolucionário retomar o poder. Se a esquerda alinhada com a ditadura assassina de Caracas triunfar.
Se me permite, gostaria de colocar uma visão diferente da questão. Antes de tudo, creio que não é possível falar em esquerda brasileira como bloco único. Mesmo no PSOL da Luciana Genro há entendimentos diferentes sobre a Venezuela. Jean Wyllys, por exemplo, um dos nomes mais conhecidos do partido, lançou nota de repúdio ao governo Maduro e sustentou suas declarações com diversos estudos, inclusive da ONU. Também entendo que não faltam pessoas que se dizem de esquerda no Brasil que são contra o regime imposto por Maduro e me incluo entre elas. Contudo, entendo ser impossível falar em Venezuela sem pelo menos citar a direita do país.
Voltando ao Brasil, o contexto é ainda mais amplo. Ao que tudo indica, o PSOL deve permanecer com seu percentual baixo nas pesquisas e suas posições mais radicais são apenas isso. Por outro lado, Lula e Ciro Gomes merecem um grau maior de atenção. Culpado ou inocente, no sentido jurídico do termo, Lula provavelmente será condenado em segunda instância e deve ser impedido de concorrer. E embora o ex-sindicalista diga aos quatro ventos que acredita na justiça, creio que temos elementos suficientes para cravar que sua sentença estava definida bem antes de qualquer julgamento.
Todavia, se o inesperado acontecer e Lula puder concorrer, acredito que seu governo seria muito mais próximo do Lula1, austero em vários aspectos, que de algo que remeta a Maduro. Ele tem dito que constituirá maioria com quem for eleito e aquela caravana com a presença de Renan sugere que isso pode mesmo acontecer. Lula continuaria sendo o conciliador de classes que a esquerda mais radical costuma dizer em tom jocoso que nem é gente. Por outro lado, Lula tem deixado bem claro que, uma vez eleito, pretende retomar investimentos públicos e redistribuição de renda, mas não tem sido contundente em relação ao mercado financeiro.
Quem tem sido mais direto quando fala do capital especulativo é Ciro Gomes. Ele já disse que acabaria com a farra que existe por aqui, no que dou total apoio. Por outro lado, o cearense tem falado muito sobre a reindustrialização do Brasil e da ajuda a “quem trabalha e produz” numa clara referência ao empresariado e ao agronegócio. Porém, no que diz respeito às privatizações de campos de petróleo, já avisou que seu caminho é desapropriar – como devido reembolso – os que forem entregues pelo governo Temer.
Portanto, não consigo ver nada que se assemelhe a Maduro no discurso da esquerda brasileira realmente competitiva (no caso do Ciro, a competitividade está vincula à ausência de Lula). O grande problema na hipótese de um Lula3 seria a continuidade dessa divisão horrível que estamos vivendo no país.
Seu comentário enriqueceu o texto. Obg!