Futebol (esporte) e política

O futebol, o esporte de maneira mais ampla, têm momentos históricos em protestos políticos e serve de válvula de escape para problemas do cotidiano

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Adenor Leonardo Bachi, o Tite pegou a seleção desacreditada e em uma situação delicadíssima nas eliminatórias para Copa de 2018 – sexto colocado e desempenho sofrível herdado de Dunga. Já no primeiro jogo, no Equador, um três a zero que deu início a uma sequência de invencibilidade tornando Tite herói nacional chegando ao ponto de seu nome ser lembrado em pesquisa para presidente do Brasil na frente de figurões da política brasileira. O clima era tão favorável que o obsessivo ouro olímpico veio no Maracanã em jogo dramático contra a Alemanha, o mesmo carrasco da Copa de 2014, com Tite sendo fundamental trabalhando nos bastidores da seleção olímpica do técnico Rogério Micale.

Tite começou a ser questionado na convocação final para o Mundial da Rússia. Nomes no mínimo questionáveis encarnando na figura de Taison, sem dúvida o símbolo da “Era Tite”. Apostou e não abriu mão da base que formou, mesmo Gabriel Jesus não marcando um único gol e não abriu de levar Renato Augusto, peça chave no esquema do técnico, mesmo machucado. Tudo que Tite acertou durante os jogos das eliminatórias e no período pré-copa errou na copa. Escalações, substituições, farra da família Neymar na concentração e comando frouxo.

Mas Tite está perdendo (se não perdeu) a áurea de iluminado por suas declarações. Antes do Mundial o treinador quebrou a tradição da delegação brasileira não recebendo o Chefe de Estado antes de embarcar para o país da Copa do Mundo. Pode alegar que o momento político estava e é muito conturbado. Na realidade, a impopularidade de um presidente denunciado duas vezes por corrupção pesou. Mas o principal motivo é, vejam só, político. Direito dele. Não simpatizar com a pessoa do Michel Temer e de governo não justifica quebrar a tradição e Tite deveria ter colocado suas posições políticas e opiniões pessoais de lado.

Sobre aparecer na foto com um presidente denunciado, não era para ser um incomodo ao cidadão Adenor, já que tem foto abraçado com o banido do futebol pela FIFA por receber propina de empresas em contratos de transmissão de TV Marco Polo Del Nero, sem falar que Tite dizia que não trabalharia com o então presidente da CBF e assinou um manifesto pedindo a saída do próprio meses antes do convite para ser técnico da seleção brasileira.

Agora, para parecer que não foi por questão política e manter o discurso de não misturar política com futebol, Tite já disse que prefere não ir até Brasília ou ter contato com o próximo presidente Jair Bolsonaro, antes da Copa América sediada no Brasil.

Na entrevista de estreia do programa “Grande Círculo”, do Sportv, Tite foi de uma demagogia ímpar. Tentando não entregar sua preferência política falou o clichê “corrupção mata” comparando esdruxulamente com homicídios e criticando a desigualdade social, finalizou dizendo que errou ao ir ao Instituto Lula após o título do Corinthians na Liberadores 2012 e manteve o discurso de não misturar futebol com política, acrescentando que não é alienado. Tudo isso porque pego mal sua crítica a ida de Bolsonaro ao Allianz Parque para festa do título brasileiro de 2018 do Palmeiras, tendo esse registro com Lula.

Tite até tem razão em não querer misturar política e futebol. Porém, só está sendo demagogo negando uma solenidade com o chefe da nação e a seleção que representa e usa o nome do país, principalmente antes de uma Copa do Mundo ou outro torneio menor no território nacional, ou em uma celebração de um grande título por um clube nacional. O futebol, o esporte de maneira mais ampla, têm momentos históricos em protestos políticos e serve de válvula de escape para problemas do cotidiano – parar uma guerra como Santos de Pelé fez. Misturar futebol e política é possível e, em certos casos, importante.

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Autor: João Paulo

Editor-chefe de Brasil Decide

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