
A renúncia de Evo Morales pode ser uma estratégia para driblar acusações de fraude na eleição e a perda de apoio político e popular. É estranho que, além de Evo, o vice-presidente boliviano e os presidentes da Câmara e Senado da Bolívia também tenham apresentado seus pedidos de renúncia. A Bolívia vive um vácuo de poder constitucional e a 2ª vice-presidente do Senado, Jeanine Áñez, a única que restou na linha sucessora, comunicou que está assumindo a presidência do país e promete novas eleições em janeiro.
Tudo indica que a estratégia de Morales é que ele consiga articular sua volta ao poder boliviano do asilo político que o México lhe concedeu. Para isso, ele tenta convencer a comunidade internacional que foi vítima de um golpe de Estado e comover o povo boliviano ao ponto de pedir pela sua volta como ocorreu com Hugo Chávez na tentativa fracassada de derruba-lo em 2002. Foi a partir daquele episódio que Chávez partiu para fechar o regime e transformou o chavismo em autoritário que acabou na ditadura de Nicolas Maduro.
Mas Morales dificilmente vai conseguir repetir Chávez e voltar nos braços do povo. Diferente da Venezuela de quase 20 anos atrás, o que aconteceu na Bolívia não foi um golpe orquestrado no bastidor. O que aconteceu foi a revolta popular que foi subindo até ficar insustentável a permanência do presidente pela fraude na eleição, comprovada pela OEA. Mesmo assim o momento na Bolívia é crítico porque não tem instituições sólidas como o Chile, que a apesar dos problemas vividos tende a sair mais fortalecido. Ainda tem a Rússia comprando a tese do golpe e alertando que não aceitaria interferência dos EUA na sucessão boliviana.
Concordo com Putin, o problema na Bolívia tem que ser resolvido internamente, mas com com supervisão de organismos internacionais para que se tenha o quanto antes uma eleição limpa, livre e o povo boliviano possa sair com instituições mais sólidas que garantam a ordem democrática pondo fim ao distúrbio social. Se a renúncia for um plano de Evo Morales, deve fracassar.