
A deputada Tabata Amaral (ainda PDT/SP) passou a ser alvo constante da esquerda. É a mesma esquerda que no início do corrente ano a tratava como uma espécie de salvação após sucessivas derrotas nas eleições de 2016 e 2018. Mas Tabata cometeu o terrível pecado imperdoável nesses tempos de polarização entre extremos: ser racional, não ser populista para agradar e ganhar likes nas redes sociais, evitar ser oposição por oposição dialogando e votando na Câmara de acordo com suas convicções nem que desagrade o próprio partido e sua base eleitoral.
Não adiantou fazer um vídeo explicando o seu voto a favor da reforma da Previdência. Os bombardeios e agressões virtuais e verbais continuaram e partiram até de Ciro Gomes, que até outro dia colocava Tabata como uma espécie de joia do partido a ser lapidada. O próprio PDT cogitava lançar o nome dela para prefeitura de São Paulo e após o voto a favor da reforma a suspendeu das atividades partidárias sem tomar uma decisão sobre o processo contra a deputada e outros 7.
Tabata Amaral era vista na esquerda como uma espécie de Alexandria Ocasio-Cortez (AOC) brasileira. Após seu polêmico voto passou a ser uma “neoliberal” que seria financiada por Jorge Paulo Lemann e faz “dupla militância”. Antes de ser eleita deputada, Tabata ajudou a fundar o Movimento Acredito, Mapa da Educação e fez o curso político no Renova BR, grupo para formações de jovens lideranças políticas que tem como entre seus apoiadores Luciano Huck.
A última polêmica envolvendo Tabata Amaral foi um tuíte banal em que a deputada comemorava a canonização da Irmã Dulce, oficialmente Santa Dulce do Pobres, a primeira santa brasileira nata reconhecida pelo Vaticano. O que parecia só uma simples homenagem virou motivo para a esquerda mais ideológica sair criticando e os mais fanáticos atacando a deputada por ela ter usado a palavra empreendedorismo, ao citar as obras sociais de Irmã Dulce. Pode ter sido só um desleixo como pode ser que ela entenda que o empreendedorismo pode sim ir além de um negócio para ganhar dinheiro. E pelos seus textos, discursos e atuação parlamentar, fico com a segunda opção.
A polêmica desnecessária foi tão grande, que precisou emendar o tuíte algumas horas depois para justificar sua manifestação sobre a Irmã Dulce.
Tudo que a Tabata fala e faz virou pretexto para uma parte da esquerda jogar pedras na deputada. Criou-se um rancor por supostamente ela ter “traído” a esquerda, seus eleitores, sua origem humilde. Os fatos, porém, mostram que Tabata está seguindo o que sempre defendeu nos seus tempos de militância antes de entrar para política partidária.
Não irei fazer uma tese defendendo que as obras sociais de Irmã Dulce seja empreendedorismo. Reconheço minhas limitações sobre o tema e reconheço também que não tenho capacidade intelectual para formular uma tese acadêmica. Vou apenas ponderar em poucas linhas que não vejo como “pecado” comparar o legado da irmã Dulce a um empreendedorismo social.
Irmã Dulce fundou um colégio para operários e seus filhos, transformou um galinheiro ao lado de um convento em um hospital, na Bahia, que hoje emprega milhares e atende pessoas pelo SUS. De uma simples iniciativa caridosa nasceu um grande hospital público mostrando que o indivíduo pode ajudar a sociedade sem ficar esperando o poder público. A iniciativa de Irmã Dulce não foi para ganhar dinheiro, o hospital sobrevive por meio de doações, mas a sua iniciativa está na gênese do empreendedorismo, de não ficar reclamando de governos e políticos ou esperando um milagre. Dulce deixou os milagres para depois de sua morte que agora a Igreja católica os reconhece e a transformou em santa.