Polícia Federal – A lei é para todos é essencial para entender a Lava Jato

Assisti só agora o filme Polícia Federal – A lei é para todos. É um filme bem produzido com cara das séries policiais americanas. O que chamou mais atenção foi o detalhismo na pesquisa da operação Lava Jato para produção do filme, bem antes da prisão do doleiro Alberto Youssef até um pouco além da condução coercitiva do ex-presidente Lula.

Não vi o partidarismo que os críticos ao filme viram – críticos que na verdade são críticos da operação que virou a política brasileira do avesso. O que eu vi foi um filme baseado em fatos reais, quase documentário. Um documento histórico do Brasil. A partidarização – e o filme tenta tirar essa impressão em uma cena maravilhosa do delegado com uma jornalista que acusa a operação de jogar contra o PT – do filme se deve por ser a primeira parte de uma trilogia. É impossível contar tudo o que aconteceu desde 2014 até o lançamento do filme em 2017.

Também houve quem achou o filme meio que peça de propaganda da PF. Realmente passa a impressão que os delegados federais, promotores e o juiz Sérgio Moro são “imaculados”, talvez esse seja o maior erro do filme: fantasiar muito as autoridades da operação. Mas pode ser corrigido na sequência da série e há fatos reais para mostrar desvio de conduta de agentes e autoridades.

Polícia Federal – A lei é para todos é essencial para entender a operação que trouxe à luz como funcionava não só o mega esquema de corrupção na Petrobras, mas a engrenagem do sistema político partidário brasileiro, a simbiose entre o poder público e empresários – no caso específico os empreiteiros – que ajuda a entender muito dos nossos problemas sociais e econômicos. E, ao elogiar o filme, isto não me impede de apontar os erros cometidos e os que ainda possam acontecer na Lava Jato.

Acorrentar os pés de Sérgio Cabral é a face do mal da Lava Jato

Não é de hoje que a Lava Jato virou terra sem lei, mas acorrentar os pés de Sérgio Cabral, sem motivo, foi o ápice da selvageria. E aqui pouco importa o crime que tenha cometido e se o preso é um dos maiores gângster da política atual que deixou o Rio de Janeiro um caos sem precedente, se eles fazem essa barbaridade com um ex-governador, senador, fazem com qualquer cidadão.

Você que se regozija vendo um político tendo tratamento que afronta o mais básico dos direitos humanos pode ser vítima de abuso de autoridade algum dia. O tratamento da PF para Cabral na transferência do Rio de Janeiro para Curitiba lembrou os tempos sombrios da ditadura militar, um Estado de exceção.

O polêmico PL que atualiza o código de abuso de autoridade datado de 1965, já aprovado no Senado, tem que ser votado na Câmara. Os jacobinos brasileiros passaram do limite. Daqui a pouco vão instituir o paredão de fuzilamento para presos/condenados.

Só débil mental ignorante para achar que ser contra linchamento a bandidos e bandidos políticos poderosos é compactuar com crimes. Ser contra linchamentos é ser contra a barbárie. É ser liberal democrata. É ser humano e cristão. É dizer não ao Estado fascista que nos aproximamos perigosamente.

Uma narrativa para interditar o debate

Na maioria dos casos quem pede punição para os “dois lados” na verdade está querendo é que um lado seja poupado e o outro punido

guerra-politica

Nesses tempos de Lava Jato com escândalos na política pegando em todos os partidos e ânimos à flor da pele nas redes e nas ruas a eterna discussão que um partido é mais protegido que os outros, que outros são “perseguidos”. A dita “perseguição” que petistas esbravejam é bobagem. O partido está na lama porque os seus membros fizeram por onde. O PT aparece nas manchetes dos jornais em escândalos gigantes de corrupção porque ele foi corrompido. E o partido chegou ao poder para acabar com a corrupção erguendo a bandeira da ética. O PT não inventou a corrupção, mas se incorporou e se lambuzou nela.

Na maioria dos casos quem pede punição para os “dois lados” na verdade está querendo é que um lado seja poupado e o outro punido com o rigor da lei.

Mas é fato também que tucanos têm digamos… uma benevolência quando estoura um escândalo no ninho deles. Compra de votos para a emenda da reeleição, mensalão mineiro, “trensalão” paulista, o “merendão” paulista deveria ser mais explorado pela imprensa. É um escândalo clichê – desvios de verba da merenda escolar – porém igual ou mais repugnante que o “petrolão” petista por mexer no dinheiro da educação.

Ao brigar com os fatos para defender um lado, esses engajados prestam um desserviço para o Brasil. Enquanto a disputa for para quem é menos sujo ou mais limpo, não avançaremos como civilização. Enquanto narrativas ditarem o debate, a mentira prevalecerá. E quem entra na narrativa que um grupo político joga no ar para tirar benefícios – racismo, pobres, machismo, gays – a pessoa só está servindo aos interesses desse grupo político e dividindo o país, e essa divisão cobrará um preço alto a todos.

Brasília 40ºC

Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Eduardo Cunha (PMDB) e Renan Calheiros (PMDB) fizeram pronunciamentos sobre o primeiro semestre do Legislativo. Cunha na TV em rede nacional e Calheiros em vídeo no canal do Senado no Youtube.

Ambos ressaltaram a independência do Legislativo nesse último semestre do governo e ambos colocaram para si esse “feito”, o de recuperar a independência dos poderes. O pronunciamento de Eduardo Cunha foi mais protocolar, mas deixou claro que seguirá na mesma linha de atuação. E o vídeo foi gravado antes dos acontecimentos de sexta-feira.

O pronunciamento de Renan Calheiros foi maior e mais incisivo. Bateu forte no ajuste fiscal novamente, festejou o PMDB mais atuante, elogiou o vice-presidente Michel Temer (PMDB), se defendeu das denúncias envolvendo seu nome, fez críticas veladas ao governo Dilma e falou dos desafios para os meses de agosto e setembro dos quais os chamou de “agosto e setembro negros”. Deixou uma mensagem subliminar para o governo mais ou menos assim: “quem procura acha” e “você colhe o que você planta”.

Se a tensão política foi grande no primeiro semestre entre governo e Congresso, principalmente dentro da base governista e mais especificamente entre PT e PMDB, no segundo semestre a expectativa é que aumente. Com os desdobramentos da Lava-jato, julgamento das contas do governo Dilma de 2014 no TCU e ação da oposição no TSE contra a campanha da presidente Dilma e do vice Michel Temer.

A defesa de Cunha será o ataque para não cair só

A defesa dele será o ataque contra a Procuradoria-geral da República e o governo

Eduardo-Cunha

A nova denúncia contra Eduardo Cunha foi tão devastadora, que o presidente da Câmara dos Deputados ficou grogue e saiu atirando contra o governo, acusando um complô entre o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra ele. Isso não se sustenta porque o PT está sofrendo consequências da operação Lava-jato. Rodrigo Janot não é radical e está coordenando a operação com toda prudência necessária. Se Janot quisesse a cabeça de Cunha a qualquer preço já tinha encaminhado denúncia contra ele no STF e, consequentemente, pedindo o seu afastamento da presidência da Câmara.

Mas a estratégia de Eduardo Cunha é visível. Ele não quer cair sozinho. O envolvimento de Eduardo Cunha na corrupção na Petrobras está cada vez mais comprovado, as provas são robustas e ele sabe que não vai ter saída. Uma abertura de inquérito contra Eduardo Cunha é dado como certo e a renúncia não só da presidência como do mandato de deputado será inevitável. É por isso que anunciou que passa a ser oficialmente oposição ao governo.

Na volta do recesso, Cunha deve colocar em votação pautas desfavoráveis ao governo. E, principalmente, votar todas as contas de governos pendentes para votar as contas do governo de 2014, que o TCU pode reprova-las. Assim, a articulação do impeachment de Dilma Rousseff seria possível do ponto de vista político.

Bateu o desespero em Eduardo Cunha. A defesa dele será o ataque contra a Procuradoria-geral da República e o governo, isso ficará mais claro nesta sexta-feira no pronunciamento que fará em rede nacional, e internautas estão organizando nas redes sociais um “barulhaço” na hora.