Não ao fundo público eleitoral bilionário

Criar um fundo com o custo de 3,6 bilhões de reais para financiar campanhas políticas é um acinte

Daniel Coelho

A quantidade de vezes que a discussão acerca de uma reforma política foi iniciada no Congresso Nacional nos últimos anos expõe duas realidades muito sérias que envolvem a política brasileira. A primeira, óbvia, é de que há uma insatisfação enorme – seja por parte da sociedade, seja por parte dos próprios representantes eleitos pelo povo – com a legislação que rege o sistema político brasileiro. A outra situação exposta é: se o tema vem à tona tantas vezes é porque legislatura alguma teve a capacidade – ou a coragem – de debater seriamente o assunto.

Nesta nova reforma política que vem à pauta, dois são os temas que estão tomando conta do noticiário e dos debates em redes sociais: em qual sistema serão realizadas as próximas eleições parlamentares e como as campanhas serão financiadas. Questões que igualmente já foram debatidas em outras oportunidades. Temos uma opinião muito clara a respeito desses assuntos.

Existem algumas questões que nos parece óbvias. Uma delas é: o povo não pode tirar do seu bolso um único centavo a mais do que já sai para que seja criado um fundo para financiar campanha política. Se por um lado o modelo de financiamento privado não cabe mais neste momento, dados os escândalos de corrupção e enriquecimento ilícito nascidos desse modelo, por outro não é razoável que a população seja a responsável por financiar instituições que estão entre as mais desacreditadas do país – a classe política e os partidos políticos.

Criar um fundo com o custo de 3,6 bilhões de reais para financiar campanhas políticas é um acinte, é uma ofensa ao cidadão, ao contribuinte que paga impostos alto recebendo muito pouco em troca. Defendo o fim do fundo partidário. Defendo uma mudança completa no formato das campanhas, em especial na televisão, com as propagandas gratuitas sendo produzidas com uma simples conversa, em estúdio, entre o candidato e a população para apresentação de suas ideias. Não tenho dúvidas de que os custos se reduziriam drasticamente. Sou contra e votarei contra a criação desse fundo imoral.

Assim como também não posso aceitar a manutenção de um modelo de eleição legislativa que, comprovadamente, tem causado aberrações a cada pleito. Acredito que não há ainda um sistema eleitoral perfeito. Todos eles possuem problemas – uns maiores, outros menores. Entre os que existem nas democracias ao redor do mundo, tenho convicção daquele que na minha visão é o melhor e aquele que é o pior. O distrital misto, acredito, é o mais justo e o que melhor contempla os interesses da sociedade. O proporcional com coligações, que temos atualmente, é o que produz as maiores aberrações. Indiscutivelmente.

Graças ao sistema que temos em vigor temos o fenômeno dos puxadores de votos, como o deputado Tiririca. Em tese, esses candidatos ajudariam a eleger outros que possuem a mesma linha política, pensam de forma semelhante. No Brasil isso não existe. Um exemplo? Recentemente, Tiririca votou pelo prosseguimento da denúncia contra o presidente Michel Temer. Os parlamentares que chegaram ao Congresso “puxados” pelo parlamentar votaram contra. Não há alinhamento. Não há pensamento semelhante. É um sistema que se utiliza de celebridades ou pessoas midiáticas para dar espaço a quem não tem voto e fome pelo poder.

O ideal seria que já tivéssemos o modelo distrital misto implantado em 2018. No entanto, o próprio TSE alertou que não havia tempo hábil para dividir o país em 513 distritos e repassar para a população todo o entendimento do novo sistema em tão pouco tempo. Surgiu a alternativa do “distritão”, um modelo majoritário onde os mais votados são eleitos de acordo com sua votação. Impossível, com ele, um candidato com 100 mil votos ser derrotado em detrimento de um com 20 mil votos.

O distritão não é o sistema ideal. Tem problemas. Diminui a importância dos partidos e o personalismo se torna mais preponderante. Mas, mesmo com seus defeitos, ainda é um sistema melhor e mais justo que nosso complexo e degradado modelo proporcional.

Assim sendo, reafirmo minhas posições: sou absolutamente contrário qualquer fundo que gere aumento do custo do contribuinte. Qualquer proposta nesse sentido terá meu voto contrário. Desde que garantido como uma transição para o distrital misto em 2022, acredito que o distritão nos traz uma redução de danos em relação ao modelo que temos atualmente.

Daniel Coelho é deputado federal pelo PSDB/PE

DISTRITÃO – mais contras que prós

DISTRITÃO torna a política ainda mais personalista

Distritão foi rejeitado na minirreforma eleitoral patrocinada por Eduardo Cunha em 2015, era o sonho do então presidente da Câmara do Deputados e é do PMDB. É o pior sistema para o Legislativo, muito pior que o proporcional com suas imperfeições, mas não existe modelo perfeito.

Não confundir esse distritão com o modelo distrital e distrital-misto. No distrital se forma distritos e cada um elege seu representante majoritariamente. No distritão é o “salve-se quem puder”, os mais votados entre todos candidatos de todo estado. Tira representatividade de setores da sociedade, favorece quem já tem mandato tirando oportunidade de novos quadros, torna o deputado ainda mais personalista e torna mais fácil para artistas, celebridades e sub-celebridades ou quem é popular se eleger.

Única vantagem do distritão é a grande desvantagem do proporcional: acaba com deputado com menos votos ganhando vaga de quem teve mais votos. Quem é a favor do distritão argumenta essa vantagem. Ou diz que um candidato com muitos votos carrega consigo vários candidatos de outros partidos. O primeiro, faz parte da proporcionalidade para ter equidade nas distribuição de vagas para Câmara Federal. O segundo, só acabar com a nociva coligação proporcional e estabelecer cláusula de desempenho.

Meu modelo favorito – não é perfeito – é o distrital-misto. No distrital-misto o eleitor vota no candidato que escolher naquele distrito e no partido de sua preferência. Cada partido elabora uma lista pré-ordenada, de preferência aberta, preenchendo metade das vagas na Câmara proporcionalmente aos votos que cada um recebeu nas urnas. Apesar de não ser perfeito, esse modelo junta o voto na pessoa (distrital) e o deixa mais perto do eleito/representante; não retira representação de minorias com o voto em lista aberta e não fragiliza partidos; com distritos menores reduz drasticamente gastos de campanha, o que com o distritão é o contrário disso.

Mesmo o distritão sendo uma ponte para o distrital-misto em 2022, não compensa. A sorte é que um conjunto substancial de deputados estão se unindo para barrar o distritão no plenário – para ser aprovado precisa de duas votações na Câmara e Senado, com 308/49 votos.

Recall político é o remédio para governo impopular

A solução para crises políticas é sempre mais democracia

Nova pesquisa de avaliação do governo de Michel Temer feita pelo Datafolha mostra que presidente superou Dilma Rousseff no quisto impopularidade. Temer tem 7% de ótimo/bom; sua antecessora atingiu pior nível de aprovação em setembro de 2015: 8%. Neste mesmo período do já longínquo ano de 2015, o ainda vice-presidente, em uma palestra para empresários, Michel Temer soltou a histórica frase: “Nenhum governo se sustenta com uma popularidade tão baixa”.

Foi aprovada na CCJ do Senado PEC de revogação de mandato do presidente. Para isso seria preciso colherem 10% do eleitorado que foi às urnas, com 5% distribuídos em 14 estados, o Congresso aprovar e submeter a um referendo popular.

No parlamentarismo, caso o Premier perca o apoio popular e parlamentar, ele pode convocar novas eleições ou renunciar. No presidencialismo, há a ferramenta do impeachment. Mas, apesar de político, o impeachment é feito para não acontecer. Além do fato jurídico comprovando que o presidente cometeu crime de responsabilidade, é preciso várias votações entre comissões e plenários da Câmara e Senado, e a oposição colher 2/3 nas votações finais. Ou seja, uma quase missão impossível. É só lembrar do processo que afastou Dilma, arrastado por meses.

Já o chamado recall é um modelo menos traumático de superar uma crise e remover um governante do cargo. Quem colocou o eleito no poder teria a chance de removê-lo se achar que ele traiu o eleitorado e está descontente sem ter que esperar a próxima eleição.

Atenção: Mesmo se a proposta do recall for pra frente, obviamente não se aplicará para essa quadra nem tem tempo para isso. E uma regra no projeto coloca que o recall não é aplicável no primeiro e no último ano do mandato, para não gerar instabilidade.

O remédio para governo impopular é o voto popular. A solução para crises políticas é sempre mais democracia.

Financiamento de campanha e a Reforma Política

Sou contra a proibição de empresas doarem para campanhas políticas. A principal justificativa é simples: isso “oficializaria” o caixa dois. Em outras palavras, os partidos continuariam recebendo doações de empresas. Só que o dinheiro contabilizado (dentro da lei) seria juntado com o “não contabilizado” – caixa dois. Viraria caixa único.

Não sou contra que exista um fundo público partidário, mas sou contra como é constituído e, principalmente, como é distribuído. O fundo partidário atrai a cobiça de oportunistas. É uma das causas do Brasil ter mais de 30 partidos e do surgimento de outros mais. O financiamento misto não é ruim, só precisa ser aperfeiçoado.

No lugar de proibir empresas, que seja fixado um limite de gastos na campanha. Hoje, o céu é o limite.

A reforma política é um clamor nacional inclusive nas manifestações de junho de 2013 e ignorada por todos os políticos. Ninguém vai mexer correndo o risco de ir contra os próprios interesses. A presidente Dilma e o PT até tentaram e insistem em um plebiscito popular para uma constituinte exclusiva para a reforma política. Mesmo indo contra Constituição Federal, eu concordo com essa proposta porque os políticos não farão tal reforma, é instinto de sobrevivência. Para não ir contra a constituição é só fazer uma PEC e mudar essa cláusula. No plebiscito é colocado o que a população acha ser o ideal para uma lei eleitoral. E os deputados e senadores elaboram uma lei dentro do possível que a população decidiu no plebiscito.

Plebiscito para a população escolher

Eleição para o legislativo: Voto distrital, voto distrital misto ou voto em lista fechada.

Financiamento de campanha: público exclusivo ou misto (público e privado).

Fim da reeleição para presidente, governadores e prefeitos: sim ou não (não sou contra reeleição).

Fim da reeleição sem limite para o legislativo (sou a favor de apenas uma reeleição para deputado federal/estadual/distrital e vereador, e nenhuma para senador – apenas um mandato de oito anos).

Fim das coligações para o legislativo (sou a favor do fim das coligações para Câmara Federal e Assembleias Legislativas).

Fim do horário eleitoral na TV e rádio: o horário eleitoral gratuito, que não é gratuito, pois as TVs e rádios descontam o tempo no imposto de renda, ou seja, quem paga é a população. Muitos defendem que poderia ser como nos EUA: cada partido faz anúncios nas TVs e rádios por conta própria (como os anunciantes).

Cláusula de desempenho (barreira): um partido só teria representação na Câmara Federal se conseguisse 5% dos votos válidos nacionalmente ou 2% em nove estados.

A cláusula de barreira é importantíssima para racionalizar o quadro partidário e evitar aventureiros e oportunistas de olho no fundo partidário.

Cláusula de barreira

 

Sessão da Câmara que aprovou projeto que restringe a criação de partidos (UOL)

A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (17), o projeto que dificulta a criação de novos partidos. A medida atinge diretamente a sigla Rede Sustentabilidade, fundada pela ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, que busca legalização na Justiça Eleitoral para disputar as eleições de 2014.

Pelo texto aprovado, não deverão ser consideradas as mudanças de deputados de uma legenda para outra para o cálculo das cotas do Fundo Partidário e do tempo de propaganda. Com isso, mesmo que parlamentares mudem de partido após a eleição, a distribuição do fundo e do tempo de propaganda não serão alterados, valendo assim, as distribuições de acordo com o número de deputados eleitos por partido. Mesmo que haja troca-troca entre as legendas, com alteração de suas composições, o rateio não mudará. Na prática, Isso reduz o interesse político na troca de partido por parte dos deputados.

Marina Silva, Heloísa Helena, Roberto Freire, que fundiu o PPS com o PMN e surgiu o MD (Mobilização Democrática), reclamaram e chamaram de “golpe”. Acusam o governo de tentar barrar partidos que ameaçam a reeleição da presidente Dilma, em 2014. Principalmente a Rede de Marina Silva.

Aprovada em 1995, a cláusula de barreira seria aplicada pela primeira vez nas eleições de 2006. A regra (prevista na Lei dos Partidos Políticos) estabelecia que os partidos que não tivessem 5% dos votos para deputado federal ficariam com dois minutos por semestre, em rede nacional de rádio e de TV, teriam de ratear com todos os demais partidos 1% do Fundo Partidário. Além disso, esses partidos pequenos não teriam direito a funcionamento parlamentar: seus deputados e senadores poderiam falar e votar no plenário, mas não teriam líderes nem estrutura de liderança.

A cláusula de barreira era muito melhor porque quem barraria os partidos menores e de alugueis era o povo, pelo voto direito, e não os próprios partidos. Para ter uma ideia, na eleição de 2006, se a cláusula de barreira não fosse derrubada pelo STF, por ação direta de inconstitucionalidade promovida pelo PC do B com o apoio do PDT, PSB, PV, PSC, PSOL, PRB e PPS (agora MD), pelo resultado de 2006, só 7 partidos atingiu 5% dos votos nacionais para deputado federal. Ou seja, os partidos que não atingiram teriam que se fundir um com os outros (para atingir os 5%) para ter funcionalidade no congresso, ou se não seriam deputados biônicos. Sem função. Aconteceria uma redução no número de partidos no Brasil feita pelo povo e pelo voto direto.

Em 2006, o PL se fundiu com o PRONA (do Enéas Carneiro), daí surgiu o PR. Outras fusões aconteceram. E outras aconteceriam se o STF não tivesse derrubado a Cláusula de barreira. Tudo bem, era inconstitucional, mas era só refazerem agora, como PEC (proposta de emenda à constituição) e assim alterar a lei.