
Lá no início, quando Bolsonaro estava escolhendo o seu vice, entendia como um erro estratégico eleitoral a escolha do General Mourão, deixando a chapa do PSL militarizada em um país ainda traumatizado com os militares. Minha preferência era pela Janaina Paschoal[1] ou pelo “príncipe” Luiz Philippe de Orléans e Bragança e próprio Bolsonaro deixou claro que seria um dos dois depois de receber vários “não”.
As declarações bizarras e outras distorcidas pela imprensa de Mourão na campanha reforçaram a percepção que foi um erro. A composição com o PRTB de Levy Fidelix não agregava nada e trazia mais buzz negativo do que positivo. Acabou não comprometendo Jair Bolsonaro e por muito pouco não venceu já no primeiro turno[1].
Em entrevista[2] publicada no Valor Econômico, o vice-presidente eleito aumentou a certeza que é um homem muito inteligente e mostra aguçado saber em vários assuntos do governo, de apontar problemas e soluções. Mourão tem um dom incrível de estrategista – até por ser general reformado – e mostra muita vontade de colaborar com o futuro governo não sendo um mero vice “decorativo” que já deixou explícito diversas vezes que não será[3].
Bolsonaro e Mourão se complementam. O titular tem a popularidade (e os votos) adquirida durante anos, enquanto o vice agrega intelectualidade e força nas FFAA. Politicamente, Mourão e Bolsonaro ainda terão muito que aprender nos respectivos cargos.
Quando Mourão foi anunciado como vice, analistas políticos disseram que a escolha era tipo um antídoto que Bolsonaro usara contra crises em um governo seu e até evitar um processo de impeachment. Bolsonaro não era bem visto entre os militares muito pelo seu passado de militar; Mourão por sua vez é o contrário: querido e respeitado no Exército. Uma dupla de militar atrairia os militares e a oposição pensaria duas vezes em propor um impeachment.
Mas há um lado negativo ter uma cabeça pensante como Hamilton Mourão na vice-presidência. Além de não querer ser “decorativo”, Mourão tem visível pretensão política de um dia ele ser o presidente. Já houve um pequeno atrito com Levy Fidelix[4] pelo fato do PRTB não ter sido agraciado com um cargo no primeiro escalão no governo e ele deixou isso claro publicamente. Mourão teve que intervir e dizer que o PRTB não estava atrás de cargos evitando uma crise antes mesmo da posse.
Antes disso, o próprio vice-presidente tinha proposto um cargo que ele ocuparia e seria tipo um prefeito da administração que ficaria encarregado de fiscalizar cada área no cumprimento das metas estabelecidas. A ideia não vingou e o papel do vice dentro do governo é incerto.
O Brasil tem o histórico do vice-presidente assumindo em definitivo a cadeira de presidente seja por renúncia, morte ou afastamento do titular. A história recomenda ficar atento no que acontece no Palácio do Jaburu.
Mourão é uma “apólice de seguro” do Bolsonaro. Em caso de impeachment ou (pois é) assassinato do Presidente, um GENERAL (pois é, de novo) tomará o lugar do titular, ou seja, trata-se de um forma de desestimular ações funestas de inimigos do novo governo.
Mourão não atrapalhou a candidatura de Bolsonaro, pois esse negócio do país estar “traumatizado” com os governos militares, foi sempre uma narrativa esquerdista, finalmente desmontada nas últimas eleições. O país atualmente com a maior taxa de homicídios do planeta, e o povo vai ficar lamentando uma época, em que a violência (pois é, mais uma vez) era muito menor? O que importa são os contrastes, as comparações que milhões de eleitores fizeram, entre o presente e o passado, e o sempre subestimado Bolsonaro entendeu isso. Muitos intervencionistas votaram no Bolso, apenas por causa do vice. E os inimigos, que pensem bem no que irão fazer mais adiante.