
Ciro Gomes é o “eterno” candidato a presidente do Brasil, já tentou por três vezes chegar ao posto máximo da República e fracassou em todas nem chegando ao segundo turno, mas em 2018 conseguiu passar da barreira dos 10 milhões de votos das outras tentativas nas eleições de 1998 e 2002. Ciro já não esconde que tentará pela quarta vez chegar ao Palácio do Planalto em 2022 e seu partido, o PDT, lançou seu nome logo após o segundo turno da eleição passada.
Na entrevista para o canal My News, no Youtube, Ciro teve a chance que não teve na campanha ou não conseguiu explicar mais objetivamente como limparia o nome sujo de 63% dos brasileiros, que foi jocosamente chamado na campanha passada de “Programa SPCiro”. Confesso que achava essa ideia uma impressora de dinheiro público que comprometeria ainda mais a gravíssima situação fiscal do Estado brasileiro e levaria a inflação para as alturas. Para minha surpresa, a explicação que ele deu não só é viável fiscalmente, como ajudaria a economia a começar a sair da paralisia que colapsa o tecido social.
Pela proposta dessa engenharia os bancos públicos arcariam com 10% da dívida dos devedores SPC/Serasa que consumiria em torno de R$ 30 bilhões, ou seja, o orçamento atual do programa Bolsa Família. Ciro garante que o Tesouro Nacional não precisaria colocar um centavo. Banco do Brasil e Caixa seriam os avalistas e os bancos privados também poderiam aderir. Uma medida que ajudaria as pessoas com nome sujo por não conseguir arcar com seus passivos, impulsionaria o consumo resgatando uma massa excluída do mercado e aqueceria a economia.
Sobre a Previdência Social e a reforma que está para ser votado o segundo turno no Senado Federal, Ciro é contra. Para ele, a reforma que será aprovada é a destruição da Previdência e não vai resolver o problema do rombo. Ciro é contra a idade mínima estabelecida na reforma (65 homens/62 mulheres) e mexer no cálculo das aposentadorias.
Ciro é a favor da capitalização, o pilar da reforma de Guedes, que o Congresso derrubou. Mas a sua capitalização diferencia da do ministro. Guedes defende e tentou aprovar uma capitalização privada e sem imposto patronal, que com o tempo substituiria o modelo de repartição. Enquanto Ciro defende uma capitalização com imposto patronal e comandada pelos trabalhadores nos moldes dos fundos de pensão das empresas estatais. Ciro defende para a Previdência, além da capitalização minorada, um sistema unificado dentro do INSS.
O outro ponto levantado por Ciro é a reforma tributária que estão na Câmara e Senado. Ele levantou um ponto interessante: ambas as propostas atacam um dos problemas fiscais do Brasil que é a confusão de tributos. O que é positivo por um lado pode prejudicar e matar polos industriais afastados dos grandes centros – SP, RJ, MG, RS. Sem falar que não ataca os outros problemas do sistema tributário que é um sistema regressivo muito no consumo e não na renda. A proposta do governo pioraria ainda mais porque recriaria com outro nome o imposto sob qualquer movimentação financeira para que o ministro da Economia, Paulo Guedes, executasse seu desejo de desonerar a folha de pagamento das empresas. Ainda bem que o presidente Jair Bolsonaro, pressionado, abortou e mandou demitir o ex-chefe da Receita, Marcos Cintra, que insistia nesse tipo de imposto para realizar seu sonho do imposto único – que não seria imposto único.
Ciro disse que a crise não foi provocada por Bolsonaro e Guedes – o óbvio -, mas estão piorando porque o primeiro não entende de economia (o que ele “confessa” publicamente) e o segundo, nas palavras de Ciro Gomes, “sofre de interdição ideológica”. Não tenho como discordar. Guedes pode ter as melhores intenções e ideias para recuperar a economia brasileira, mas não entende nada de Brasil e acha que só com reformas, privatizações, descentralização e desburocratização atrairá investidores privados daqui e de fora para a roda da economia voltar a girar quase como milagre. E ameaçando “ir embora” se não fizerem suas vontades.
O mês de setembro registrou deflação e teve quem comemorasse como se fosse um dado positivo. Ignorância ou má-fé. Quando se registra deflação é sinal que a economia está estagnada. Parada, mesmo. E isso não é motivo para comemoração. É de alerta que tem algo de errado no ajuste fiscal e nas medidas contra a inflação. Que é a hora do governo fazer uma autocrítica na sua política econômica que, na realidade, não é liberal e sim caprichos do mercado financeiro e agiotagem.
Enquanto isso, Ciro vai levando sua mensagem aos brasileiros e tem uma lábia de fazer até quem discorda dele parar para ouvir e refletir.