Oposição sem projeto e sem candidato

O enredo da novata Acadêmicos de Niterói no grupo especial dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro provocou polêmica, discussões acaloradas, debates sérios, inúteis e raivosos. Tudo porque a escola resolveu levar para a avenida a história de Lula em pleno ano eleitoral que o atual presidente vai tentar mais um mandato.

Tentaram até censurar o desfile e a oposição vai formar fila no TSE para protocolar denúncias de propaganda eleitoral antecipada e abuso de poder contra Lula. Isso diz muito sobre a nossa atual oposição, mostrando que não tem projeto de governo.

Passaram 3 anos com tema único: anistia a quem atentou contra a democracia. Chegou no ano da eleição sem projeto claro e viável. Sem candidato. Ninguém sabe quem será o candidato da oposição. Apesar de muitos se apresentarem ao posto, nenhum se viabiliza e há uma divisão dentro da direita que deixará mágoas difícil de resolver.

Outro ponto é que essa “nova” direita passou anos acusando o politicamente correto, mas pega ar muito fácil com qualquer provocação ao seu líder e aos neoconservadores. Vestem a carapuça e saem acusando de blasfêmia caricaturas em um desfile carnavalesco, piadas e outras coisas.

Novo quer censurar desfile de escola de samba que homenageará Lula

As escolas de samba sofrem preconceito pelos seus integrantes de comunidade (favelas), subúrbios, a questão do jogo do bicho sustentar por muitos anos os desfiles no Rio Janeiro (hoje os recursos são diversificados) e o próprio samba chegou a ser marginalizado.

Acadêmicos de Niterói venceu a Série Ouro do carnaval de 2025 e ganhou o direito de abrir os desfiles de 2026. Ainda no ano passado, a escola escolheu como enredo contar a história de Lula, o atual presidente do Brasil.

Só aí já atrairia simpatia por uma parte, rejeição por outra parte, curiosidade do público geral e muita mídia gratuita para o desfile da escola.

Pode ser questionado o timing. Ser no ano eleitoral que o predidetente vai tentar a reeleição. Mas comparar com o ex-presidente Jair Bolsonaro usando o espaço e recursos públicos para atacar o sistema eleitoral a embaixadores e usar o centenário da independência como comício é uma simetria ridícula.

Pior é querer proibir que o desfile aconteça, como pede o partido Novo ao TSE, justo o partido que diz defender a liberdade de expressão. Os desfiles das escolas de samba já passaram por vários tipos de censura, essa é mais uma tentativa.

Mangueira reescrevendo a história

A história está escrita como aconteceu e o que Leandro Vieira deseja é apenas reescrevê-la ao sabor de suas crenças. É peculiar de gente que tem uma visão de mundo como o carnavalesco da Mangueira

Muitos dirão que desfiles das escolas de samba são na essência contestadores do status quo, que a beleza é essa vertente revolucionária, libertária e o carnaval das escolas de samba é muito mais que uma festa popular para diversão. É um discurso lindo e emocionante, mas o que a Estação Primeira de Mangueira vai fazer na noite/madrugada de segunda para terça-feira não passa de revisionismo para desconstruir a história que não agrada o carnavalesco Leandro Vieira.

Leandro Vieira quer colocar nas mentes das pessoas que nossa história foi feita para “ninar” o povo que cresce adormecido e transformou o Brasil em uma partida de futebol na qual “preferimos torcer para quem ganhou”. Que os heróis nacionais foram forjados pela elite econômica, política, militar e educacional. Que tais valores produziram o complexo de “vira-latas” que “fomenta nossa crença de inferioridade” e, a partir do desfile de 2019 da Mangueira, será plantada a semente que vai gerar uma nova sociedade com novos “verdadeiros” heróis. O desfile da escola de samba será usado para fazer a revolução cultural. Veja o tamanho da pretensão. Ou seria ousadia?

Escolas de samba bancadas por jogo do bicho e outras organizações não muito lícitas – inclusive o presidente afastado da escola preso por participar de desvios públicos na Assembleia Legislativa do Rio. Que choram quando o prefeito corta um pedaço da verba pública, que financia um evento que deveria se sustentar com patrocínio privado, para recolocar em áreas essenciais para a população de maioria carente.

Leandro Vieira pretende reescrever a história do Brasil, desde o descobrimento que, para o carnavalesco, não foi “descobrimento” e sim uma “conquista” do “invasor”. Leandro vai contestar a independência proclamada por Dom Pedro, que não passou de uma armação dos portugueses para Portugal não perder o território para os verdadeiros donos, nós brasileiros, a República foi um golpe (isso não é bem uma novidade “escondida”) de um monarquista e a “Redentora” que assinou a Lei Área abolindo a escravidão no Brasil, a Princesa Isabel, não é a heroína que os livros contam. E por aí vai.

Na verdade, o que vai ser apresentado na Avenida de Sapucaí é um enredo de um militante progressista de esquerda tentando apagar alguns “heróis convencionais” e substituir por personagens históricos das ditas “minorias”. A história está escrita como aconteceu e o que Leandro Vieira deseja é apenas reescrevê-la ao sabor de suas crenças. É peculiar de gente que tem uma visão de mundo como o carnavalesco da Mangueira e com certeza será aclamado pelo establishment da mídia progressista.

Carnaval e Poder Público

É justo o dinheiro dos impostos de todos financiar um evento que privado?

sapucai

O youtuber do canal Mamãefalei e deputado estadual eleito por São Paulo, Arthur Moledo do Val, fez um vídeo interessante sobre se o carnaval é moral e se deve receber dinheiro público com o pretexto de incentivo à cultura popular. Arthur deixa claro que o “moral” não tem nada com sexo e você pode gostar e sambar até o dia amanhecer. O problema está na relação muitas vezes espúrias entre o poder público – federal, estadual e municipal – e as escolas de samba.

A imoralidade que o Arthur levanta não está no tapa sexo ou no sexo livre durante todo  o carnaval, mas nas relações dos donos das escolas de samba com o jogo do bicho, drogas e até com o crime organizado. Ele levantou a ficha corrida dos principais presidentes das escolas de samba do Rio de Janeiro e assusta. Falou também de São Paulo, para não ficar parecendo um paulista falando mal do “patrimônio carioca”.

Há 2 anos o prefeito Marcelo Crivella (PRB) comprou briga diminuindo o repasse que a prefeitura faz anualmente para as escolas de samba do Rio. Insatisfeitos, levaram para avenida até um boneco do Crivella em forma de Judas. A verba pública para o carnaval não é patrocínio, é subvenção – ou seja subsídio.

Será que o “maior espetáculo da terra” não pode se sustentar sem a verba pública tirada de áreas sociais já tão deficitárias? É justo o dinheiro dos impostos de todos financiar um evento que privado? É um tema para debate, sem paixões.

Beija-Flor ensinou como se faz desfile crítico

A Beija-Flor de Nilópolis encerrou os desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro com chave de ouro. Levando para avenida enredo baseado no livro de “Frankenstein”, que na verdade originou o enredo.

Com o título “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, Beija-Flor deu uma aula de enredo crítico sem ser partidarizado. A escola de Nilópolis falou de corrupção, abandono do poder público, as consequências desse abandono, de intolerância. Tudo isso com excelente samba que empolgou o público e sem partidarizar a favor de partidos, muito diferente do desfile no dia anterior da Paraíso do Tuiuti, que seu carnavalesco fez uma crítica social enviesada politicamente.

Beija-Flor também se diferenciou da Mangueira. Mostrou que não precisa nomear ou usar a religião de políticos para critica-los de modo sarcástico.

Se os jurados julgarem corretamente, como deve ser, ninguém tira esse carnaval da Beija-Flor. “Ratos e urubus, larguem minha fantasia” ganhou uma companhia na galeria de desfiles monumentais da escola de Nilópolis.