Nova Ordem

Mais do que a vitória no primeiro turno e quase ganhando a eleição, Jair Bolsonaro está quebrando paradigmas

Foi um verdadeiro tsunami no primeiro turno das eleições de 2018, com queda de verdadeiros impérios da política brasileira. Esse tsunami foi provocado pela onda de Jair Bolsonaro (PSL) levando consigo deputados, senadores, governadores para primeiras posições e votações consagradoras. A política brasileira não será a mesma depois desta eleição. Se a mudança será para melhor, só o tempo.

A “Onda Bolsonaro” que virou tsunami derrubou mais um pouco a credibilidade dos institutos de pesquisas, que erraram feio nas disputas locais de Rio de Janeiro e Minas Gerais. Também derrubou teses de analistas políticos e marqueteiros. Bolsonaro quase liquidou a fatura já no domingo dia 7 o deixando muito próximo da vitória no dia 28.

Mais do que a vitória no primeiro turno e quase ganhando a eleição, Jair Bolsonaro está quebrando paradigmas impressionantes no nanico PSL que não chega a ser uma novidade, Collor já tinha feito isso na lendária eleição de 1989. A diferença de Collor para Bolsonaro é que o segundo está conseguindo transferir sua enorme popularidade para seus aliados e quem está se aproveitando para surfar nessa onda.

Mesmo assim um governo de Bolsonaro não terá vida fácil em um Congresso ainda mais fragmentado. A utilização da cláusula de barreira pode diminuir o número de partidos no parlamento, mas ainda vai ser fragmentado. E vale se Fernando Haddad (PT) conseguir o milagre de reverter uma desvantagem de quase 20 milhões de votos. Ao contrário de muitos especialistas em análise política, segundo turno não é uma “nova eleição” e qualquer que seja o vencedor não será fácil costurar uma sólida base para um mínimo de governabilidade.

Mas antes de pensar em formar uma base parlamentar, Haddad vai precisar muito mais dos mais de 13 milhões de votos de Ciro Gomes (PDT). Mesmo que consiga esses votos do Ciro de forma integral e consiga os de Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB), Marina Silva (REDE), Guilherme Boulos (PSOL) e o pedaço progressista dos votos de João Amoêdo (NOVO), Haddad só vence se Bolsonaro não aumentar sua votação e torcer para ele até perder alguns. Seria uma repetição da eleição de 2006, em que Alckmin perdeu votos no segundo turno, só que em um cenário inverso. Naquela eleição de 12 anos atrás Lula buscava a reeleição e venceu o primeiro turno.

Os mapas eleitorais da eleição presidencial se dividem em azul e vermelho nas eleições de 2006, 2010 e 2014, com um estado e outro sendo a exceção da polarização PSDB e PT. EM 2018, o azul do PSDB foi substituído pelo verde do PSL. Mas a grande mudança é o PT perdendo espaço e ficando quase exclusivamente apenas com o Nordeste. Até o Norte, Minas Gerais, Rio de Janeiro e variando Rio Grande do Sul passaram a ser verde. É uma nova ordem impulsionada pelo fenômeno chamado Bolsonaro.

Nem cinco minutos guardados

Virou tarefa difícil acessar aqueles cinco minutos guardados

Maria Carolina Gontijo

Eu comecei esse texto mais ou menos umas 5 vezes. Provavelmente o mesmo número de guinadas na campanha do Geraldo Alckmin em 2018. A proposta original seria escrever sobre os programas de TV dos candidatos. Mas quem disse que eu, como boa mineira, recuso um velho e bom clássico, disputa, rivalidade? Jamais. E foi assim que eu me peguei presa ao PT x PSDB mais sem graça que esse país já viu.

Tempo na TV. Todo mundo quer tempo na TV. Quando a pessoa topa se submeter a um confinamento por 3 meses sendo monitorada 24hs por dia o que ela quer? Tempo na TV. Pois bem, feliz 2002 pra vocês também.

O PSDB parece desconhecer algo que os heróis do Big Brother já perceberam tempos atrás: não importa mais o tempo de TV, importa criar uma identidade, um discurso, e capitalizar isso através de pessoas dispostas a seguir você. Aquele aparelho que durante décadas reinou soberano na sala não é mais a única plataforma para conseguir ser ouvido. Pior: sequer é a plataforma preferida de quem quer ouvir. Por mais estranho que possa parecer, o brasileiro parece estar deixando de ter tempo para a TV.

Eu sempre fui uma fã do horário eleitoral gratuito na TV (eu tenho gostos peculiares, você não iria entender). Assistia atenta, gostava dos roteiros, das músicas (um abraço do Paulino!), lembro de adorar a campanha do Azeredo para Governador (“pode por um ‘x’ no lugar certo” – e me desculpar por isso). Pois bem. Após mais de 15 dias de campanha na tv, eu assisti espontaneamente a um total de zero programas. Sim. Zero. Bolinha. Nada. Se eu troquei de canal na hora? Não. Eu simplesmente não tive tempo, não coincidiu o horário, não ornou, não alinhou. Não vi.

Em pouco mais de 5min de programa, Geraldo Alckmin parece mais um quadro do Programa do Gugu. Tem grávida, tem esposa comprometida com a causa social, tem história comovente de alguém que conseguiu uma vida melhor por obra e graça do Governo de São Paulo. Com voz calma, serena, e uma narradora que fala em uma velocidade que pressupõe déficit cognitivo do telespectador, Geraldo parece completamente descolado da realidade do país que subiu numa montanha russa em 2013 e está lá, até hoje, em looping. Tudo é devagar, tudo é tranquilo, tudo é ex-pli-ca-do. Ok, eu concordo que seria tudo ótimo, não estivesse tudo isso em total descompasso com o momento político. Ao PSDB parece faltar a máxima dos Big Brothers: use a TV para despertar o interesse fora da TV. O programa acaba e você só tem vontade de ser educado: dizer “não, Geraldo”, mas acrescentar o obrigado.

Com pouco mais de 2min e meio de programa, a coligação do PT, que claramente está disputando a presidência em forma de entidade espiritual, optou por não lançar um candidato e sim um emaranhado de lembranças de um tempo-bom-que-não-volta-nunca-mais. O programa é tão interessante quanto surreal, o que acaba ativando aquela curiosidade que nos leva a assistir “Eu não sabia que estava grávida”, no Discovery Home and Health. É tudo tão fora da realidade que a gente se pergunta se realmente existe gente assim. Mas existe. Muita. E com menos da metade do tempo do Alckmin, o PT parece compreender muito melhor a dinâmica da TV ao entregar um saudosismo de ocasião aliado a uma raiva pré-moldada.

Seria apenas mais um Galo x Cruzeiro na história do país que abraça dualidades por natureza, não fosse um pequeno grande detalhe: parte da torcida olha para o campo e não se reconhece mais no time. De repente bate aquele sentimento de “time apático perdendo por 3×0 num mata-mata” e aos 39min do segundo tempo o mais sensato a fazer parece ser fugir do trânsito. Esquecer esse jogo.

Ao contrário do PT, nunca houve uma identificação do brasileiro com o PSDB. Claro, havia aquela simpatia por ideias, por programas, por líderes. Mas por partido? Arrisco dizer que não. Basta ver o que Minas Gerais impôs ao PSDB nas eleições para o Governo do Estado em 2014. Não, o PSDB não elege postes (e aqui nem vou entrar no mérito se isso é bom ou ruim). Mas pelo menos, até 2014, não quebrava as lâmpadas dos que já estavam funcionando.

Se o Lula tem teflon, como disseram tempos atrás, o PSDB é aquela panela de fundo triplo inox: quer convencer que é boa, que é econômica, que mantém a comida aquecida por mais tempo… mas haja água quente pra limpar o que gruda. E tudo gruda. A gente fica com aquela sensação de que se não ficar de olho, vai estragar tudo. E em tempos de fritadeira elétrica, ninguém quer vigiar panela.

O tempo passou e está cada dia mais escasso. Ninguém ouve áudio de 2 minutos. Enquanto os caciques do PSDB vendem a (nossa) alma para conseguir mais minutos de TV, qualquer youtuber sabe que 5 minutos é tempo demais para prender a atenção de alguém. Antes fácil até para um cigarro, virou tarefa difícil acessar aqueles cinco minutos guardados de cada pessoa.

Onde eu quero chegar? Não adianta ter todo o tempo do mundo para propagandear, se o que você tem para vender é um produto que ninguém quer comprar agora. Que não se encaixa. Que soa antigo. Pior: que tem um fabricante com fama duvidosa. Esse tipo de estratégia só faz sentido quando existem fãs incondicionais da marca. Daqueles que dormem na porta de estabelecimentos comerciais e prisionais por mais um lampejo de consumo de produtos e ideias. Não é nem de longe o caso do PSDB.

Maria Carolina Gontijo é mineira e advogada tributarista

Análise: Fernando Haddad no Jornal Nacional

William Bonner e Renata Vasconcellos buscaram levantar pontos polêmicos da trajetória do entrevistado e de seu partido

HaddadJN

MICHEL COSTA

Na quinta e última entrevista com os candidatos à presidência da República mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais, o Jornal Nacional recebeu nesta sexta-feira Fernando Haddad do PT. Usando mais uma vez o formato das sabatinas anteriores, William Bonner e Renata Vasconcellos buscaram levantar pontos polêmicos da trajetória do entrevistado e de seu partido, sem dar espaço para colocação de propostas.

No caso específico de Haddad, cuja candidatura em substituição a Lula havia sido registrada três dias antes da entrevista, os telespectadores não tiveram a oportunidade de ouvir uma única proposta. Coube ao ex-prefeito de São Paulo se defender durante os quase 30 minutos de entrevista, começando com os escândalos do Mensalão, Petrolão e sobre suposta falta de autocrítica no Partido dos Trabalhadores.

Antes de responder, Haddad incluiu o ex-presidente Lula em seu boa-noite, o que daria um pouco da tônica do que viria a seguir. Na sequência, reforçou a tese de que o PT foi o partido que mais fortaleceu os mecanismos de combate à corrupção, relembrando ainda que os primeiros escândalos na Petrobrás nasceram durante a Ditadura Militar e que não é papel de um presidente da República se imiscuir com indicações dos diretores de estatais.

Ainda no tema corrupção, a sabatina começou a esquentar quando Bonner listou, entre petistas presos, condenados ou investigados, dois ex-presidentes, onze ex-ministros, quatro ex-presidentes do PT e três tesoureiros. Dizendo que não era correto “misturar as coisas”, Haddad citou o financiamento de campanha – em referência ao crime de Caixa 2 – e fez questão de lembrar que Dilma, por não ser ré em nenhum processo de corrupção, não deveria ser incluída naquela lista, entendendo ser uma condenação por antecipação.

Sobre a acusação de que haveria uma conspiração do Poder Judiciário, mas que grande parte dele tinha sido indicada pelos governos petistas, Haddad disse que, pessoalmente, nunca falou em conspiração, mas em erros, e que as decisões dos tribunais reforçam a ideia de que não houve partidarização do judiciário.

Quanto às denúncias do Ministério Público de São Paulo que o acusam de corrupção passiva, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, o candidato defendeu suas ações na prefeitura de São Paulo e lembrou que a própria Corregedoria do Ministério Público investigará possível “boca de urna” dos promotores que atuam em processos contra políticos na campanha eleitoral. Em seguida, em novo momento de tensão, Fernando Haddad ignorou a tentativa de mudança de assunto dos entrevistadores para dizer que era decisão dele a satisfação com a resposta quando é o assunto é sua própria honra.

A derrota para João Dória no primeiro turno das eleições municipais de 2016 foi o tema seguinte. Na oportunidade, Haddad lembrou o momento político do País que acabou culminando com o impeachment de Dilma Rousseff e que o represamento das denúncias contra outros partidos provocou a indução do eleitor ao erro.

Tal declaração soou para os apresentadores como se a culpa fosse sempre dos outros e nunca do PT, observação que fez o candidato citar a recente entrevista de Tasso Jereissati na qual o tucano descreve aquele que seria um conjunto de erros memoráveis do PSDB após as eleições de 2014, concluindo que, para ele, o governo Dilma foi sabotado pela oposição, instante em que Bonner relembrou a estratégia eleitoral da ex-presidente de segurar aumentos de preços para realizá-los após aquele pleito.

Com o tempo da entrevista estourado, restou a Haddad falar sobre o Brasil que queria, espaço que usou para falar sobre sua passagem pelo MEC citando as universidades federais criadas, o PROUNI naquele que seria o melhor momento do país nas últimas décadas, concluindo que quer fazer o Brasil ser feliz de novo.

Ao final da entrevista, a impressão anterior de que nas sabatinas do Jornal Nacional não há espaço para colocação de propostas se ampliou. Fernando Haddad não foi perguntado acerca de nenhuma de suas propostas e se viu obrigado a apenas se defender de perguntas acusatórias. Mais uma vez, o telespectador não teve chance de conhecer mais sobre um dos presidenciáveis com maior potencial de chegar ao 2º turno.

Michel Costa, 42, mineiro, casado e formado em administração

Radicalização do PT é ‘cortina de fumaça’. Haddad é o ‘plano B’

O day after após a confirmação da condenação de Lula por corrupção e lavagem de dinheiro no TRF4 foi sangue nos olhos, provocação, ameaça de desobediência civil e o lançamento oficial da pré-candidatura do ex-presidente, mesmo com poucas chances de ter o registo deferido pelo TSE.

Mas, nos bastidores, o PT prepara Fernando Haddad para ser o “alter ego” de Lula. O próprio ex-presidente já havia colocado o ex-prefeito de São Paulo como coordenador do seu plano de governo e cita educação nos seus discursos Brasil afora. A ideia é ir apresentando Haddad aos poucos até para não esvaziar a imagem de Lula, o que é importante tanto para Lula quanto para Haddad.

Jaques Wagner, o outro nome ventilado, prefere reeleger Rui Costa governador da Bahia e assegurar uma cadeira no Senado Federal.

Acho que Fernando Haddad tem sim chance de pegar uma parcela do fiel eleitorado de Lula. É verdade que Haddad nem ao segundo turno foi na tentativa de reeleição como prefeito, mas aquele eleitorado que está com Lula até ele preso (sim, existe) pouco se importa ou nem sabe quem é Haddad. Basta ligar Haddad a Lula igual fizeram com Dilma. E com a vantagem de que Haddad é muito mais inteligente do que Dilma e não vai precisará de um João Santana para se apresentar nacionalmente.

Outra coisa que me leva acreditar na chance de Haddad ir ao segundo turno é que a linha de corte de 2018 não deve ser muita alta, pela pulverização de candidatos. É muito cedo para saber quantos candidatos realmente disputarão o pleito presidencial, mas é possível calcular de 10 a 12. Nas últimas eleições Serra (32,61%) e Aécio (33,55%) foram ao segundo turno na casa dos 30%, enquanto Marina Silva ficou de fora com 19,33%, em 2010, e 21,32%, em 2014.

Para 2018, a possibilidade de um candidato ir ao segundo turno com 25% dos votos válidos é grande. E vou mais longe: não descarto com 20%, se a disputa for com muitos candidatos competitivos no pilotão de frente.

Haddad é, sempre foi, o ‘plano b’ do PT e de Lula.

A campanha do medo está de volta

O PT aprendeu a fazer campanha do jeito que seus adversários faziam contra Lula

Dizem que em eleição o vale-tudo é regra. E o PT está seguindo esse lema nas últimas eleições. Em 2014, o partido não se incomodou em atacar seus adversários na disputa presidencial e às vezes de forma desleal. Primeiro, com Eduardo Campos, um grande aliado meses antes, em um texto apócrifo na internet intitulado “A balada de Eduardo Campos”. Marina Silva, que ficou no PT por 24 anos fundando o partido no Acre e sendo vereadora, deputada e senadora, foi o próximo alvo.

Marina assumiu a campanha de Eduardo Campos após o acidente que vitimou o candidato do PSB. Ela passou de vice para titular da chapa e subiu como raio nas pesquisas chegando a liderar a disputa ao lado de Dilma e ultrapassando em um segundo turno. Aí, começou o bombardeio de João Santana na TV/rádio e da militância na internet.

Acusações, acusações, com mais acusações e tome acusações contra Marina. Algumas bem baixas e caluniosas, como insinuar fraqueza para ser presidente pela aparência física. A campanha de Dilma também acusou Marina de não ter apoio parlamentar para governar, a comparando com Jânio Quadros e Fernando Collor – a ironia da história foi a presidente Dilma sofrendo impeachment por falta de base parlamentar…

Mas o que marcou mesmo foram as inserções do prato de comida que o governo Marina – posteriormente o governo Aécio – tiraria dos pobres. Só a reeleição de Dilma para salvar o país do retrocesso. O retrocesso aconteceu com Dilma no maior estelionato eleitoral já praticado no Brasil.

Agora é a vez de Fernando Haddad na difícil batalha pela reeleição à prefeitura de São Paulo usar a mesma estratégia sem João Santana, o “mago” da propaganda política e responsável pelas últimas campanhas petista (inclusive de Haddad) foi preso e só solto após fazer acordo de delação premiada. Haddad está bem atrás nas pesquisas faltando 10 dias para o primeiro turno, além do tempo escasso, uma rejeição brutal e sem João Santana. O PT aprendeu a fazer campanha do jeito que seus adversários faziam contra Lula, quando ele ainda sonhava chegar ao poder. É a campanha do medo. Regina Duarte fez escola.