
É complicado falar de ideologia em um momento de radicalização, em que ponderações e opiniões são vistas como “traindo o movimento”, não importando se direita ou esquerda. Flavio Rocha, dono da Riachuelo, fundou junto com outros empresários o movimento Brasil 200, para as eleições 2018 com foco no bicentenário da independência em 2022.
A esquerda levantou o fato do Flavio Rocha ser liberal e pegar empréstimos do BNDES – dentro da lei – e liberais mais, digamos, radiciais – libertários – também criticaram Rocha o acusando de ser um “liberal de boca”, de ter foto dele com a ex-presidente Dilma Rousseff, como se fosse um crime gravíssimo. Rodrigo Constantino fez um texto criticando diretamente o ILISP, que por sua vez criticou o novo “guru” do MBL. A questão é que enquanto a esquerda se une para defender Lula da condenação em segunda instância por corrupção e na montagem de um programa mínimo para as eleições, os liberais ficam brigando entre si na internet. É um dos motivos de levarem pau nas urnas.
Mas, se olharmos por outro ângulo, a desunião da direita evita que alas virem “puxadinhos”, “linhas auxiliares” e “satélites” de um polo hegemônico igual a esquerda vive o dilema, como é o caso de partidos como PSOL, PCdo B, PDT, PSB com o PT. Constantino diz no artigo que abandonou o libertarianismo e que está escrevendo um livro com confissões de um ex-libertário porque entrou em choque com “jovens que parecem ter descoberto a “pedra filosofal” e, com típica cabeça de planilha, resolvem pregar uma revolução da sociedade, para que tudo se encaixe em seus dogmas.”. E ele tem razão, libertários e anarcocapitanistas se acham “puros” demais para se misturar com liberais pragmáticos.
Acerta, também, ao fazer a comparação entre o radicalismo dos libertários com os socialistas marxistas. Ambos têm a utopia como dogma: socialistas imaginam uma luta de classes e pela igualdade plena; libertários e ancaps lutam para acabar com o Estado e os impostos. A diferença entre os dois grupos é que um luta contra o capitalismo opressor, enquanto o outro luta contra o Estado opressor. Quem fica na zona cinzenta é chamado pelos dois lados de “falso liberal”. Pensamento ideológico é muito complexo e pessoal para outrem definir o que você é, seja ele socialista marxista, libertário, liberal ortodoxo, conservador ou ancap, não importa. Em uma democracia cabe todos os pensamentos filosóficos, político e social.