Brasil dividido em três

Bolsonarismo e petismo 35%; neutro/nenhum 27%

Dado da pesquisa Datafolha mais recente mostrou como o brasileiro se identifica no momento politicamente. O bolsonarismo avançou e empatou, literalmente, com o petismo.

Mostra a força desse grupo político apesar do seu líder Jair Bolsonaro processado por tentativa de golpe de estado. Enquanto o petismo teve queda nos simpatizantes reflexo da baixa popularidade do governo Lula.

A turma do meio, os “isentões”, aparece logo atrás não muito longe dos polos. O Brasil continua dividido em três grupos e não deve mudar até as eleições de 2026. A questão é para que lado vai o centro na eleição. Em 2018, foi para Bolsonaro. Em 2022, para Lula. E agora?

A força do bolsonarismo e a importância da autocontenção do STF

STF foi uma barreira para o golpismo de Bolsonaro. Mas o tribunal gostou de concentrar poder demasiado, de exceção

O Brasil vive clima de campanha permanente, isso desde 2014. Depois das eleições que consagrou Dilma Rousseff (PT) reeleita com margem estreita de votos, os derrotados não saíram do palanque. O candidato que perdeu, Aécio Neves (PSDB), erroneamente recorreu a uma auditoria de votos na urna eletrônica embarcando em teorias conspiratórias de fraude. Ali Aécio abriu a porta do inferno para contestações dos resultados das eleições por parte de Jair Bolsonaro (PL), também derrotado em 2022 por pequena diferença.

Mas a culpa por esse clima de campanha permanente também é da Operação Lava Jato que criminalizou a política. Com as mídias sociais as pessoas se politizaram culminando nas jornadas de junho de 2013. O problema é que foi mais para o mal do que para o bem.

Enroscado em inquéritos comandados pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, Bolsonaro tenta mostrar força popular para tentar intimidar a justiça e escapar de condenações e ser preso por vários crimes que lhe são atribuídos. Dos mais irrisórios como a falsificação do cartão de vacinação à tentativa de subverter a democracia com uma tentativa de anular a eleição que saiu derrotado (pela primeira vez um presidente não conseguiu a reeleição) por meio de decretos de Estado de sítio e de defesa, ou seja, um Golpe de Estado.

Depois de fazer uma grande manifestação em São Paulo, em 25 de fevereiro, patrocinada pelo pastor Silas Malafaia, hoje Bolsonaro realizou outra manifestação agora no Rio de Janeiro. E, pelas imagens (acima), lotou novamente. Mostrando que o bolsonarismo continua forte e resiliente. Mais do que isso: mostra que a tese que o Brasil vive sob censura e caminha para uma ditadura é atraente.

Xandão, o xerife da República

Com o Congresso inerte, o STF tomou para si a proteção das instituições da República e da democracia de forma muitas vezes autoritária

Reportagem do NY TIMES diz que o STF, ao tentar conter ameaças de Bolsonaro, atua de forma autoritária. No intuito de conter as ameaças de Jair Bolsonaro e do bolsonarismo, o STF extrapola nas suas atribuições, em especial o ministro Alexandre de Moraes. Moraes vestiu o personagem de uma maneira que o cegou.

O STF é a última barreira contra o autoritarismo do bolsonarismo, mas extrapolando em suas atribuições acaba por dá fôlego para o adversário. Dá argumentos para vitimização e fica mal na opinião pública.

Um dos exemplos que o STF foi longe demais é o caso dos empresários bolsonaristas flagrados conspirando contra a democracia. Tudo bem que as mensagens são de teor golpistas. Mas usar apenas material jornalístico para buscas e apreensões, suspendendo contas dos mesmos de rede sociais foi um erro.

A condenação de Daniel Silveira também foi exagerada. Quase 10 anos de prisão e cassação do mandato. O Supremo pesou a mão na dosimetria da pena. Por mais horríveis que sejam as palavras ditas por Silveira em vídeo na internet, ameaçando minitros, a pena foi desproporcional.

Tudo bem que o STF está sozinho na defesa das instituições e da própria democracia. O Congresso, por corporativismo ou comprado por orçamentos secretos, está inerte. Mas não pode o tribunal em nome da democracia ou da autodefesa extrapolar com inquéritos abertos de ofício passando por cima da Constituição.

Moraes tomou para si prerrogativas que afrontam a Constituição. Vestiu a roupagem de Xandão, o xerife da República. Por mais virtuosas que sejam suas justificativas para decisões, elas não podem ser autoritárias. Não se combate autoritarismo com autoritarismo.

O plano golpista bolsonarista

Bolsonaro planta para colher o seu 6 de janeiro

Após mais um ataque golpista de Jair Bolsonaro ao sistema eleitoral brasileiro, dizendo que teve fraude na eleição de 2014, o candidato a vice-presidente de Aécio Neves, Aloysio Nunes, precisou dizer o óbvio: “perdemos porque faltou voto”.

Pressionado, Aécio saiu do silêncio para dizer que não acredita em fraude em 14, mas defendeu a adoção do voto impresso. Substituir as urnas eletrônicas de primeira geração por novos modelos, disse. No fundo, Aécio tem no mínimo dúvida. Fica feio para o derrotado desconfiar do resultado. Já Bolsonaro acusa fraude na própria eleição que venceu.

Derretendo nas pesquisas, pressionado no lado jurídico pela CPI da Pandemia, politicamente com a ameaça de debandada do centrão do seu governo, o fantasma dos segredos da família aparecendo, Bolsonaro planta a semente da discórdia já projetando a sua derrota em 2022. Imitando Trump. O atual presidente da República vai mais longe que o americano e ameaça o calendário eleitoral se o voto impresso não valer em 22.

A invasão ao Capitólio deixou mortes e a página mais vergonhosa na democracia americana. Bolsonaro planta para colher o seu 6 de janeiro em caso de derrota e, como disse, vai mais longe ameaçando não ter eleição “sem eleições limpas”. Veremos se terá força no seu plano golpista. Deve estar contando com o suporte das Forças Armadas no seu intento (lembrando que o bolsonarismo está arraigado no seio das PMs e na baixa patente das Forças Armadas). A dúvida é se os militares vão dar apoio ao levante bolsonarista.

Bolsonarismo se empolgou com El Salvador

O presidente de El Salvador se aproveitando da maioria que conseguiu no Congresso destituiu membros da Câmara Constitucional do Supremo Tribunal de Justiça – equivalente ao nosso Supremo Tribunal Federal – e o procurador-geral. Sem tergiversar, com argumentos idênticos usados no Brasil, o presidente Nayib Bukele aplicou um (auto) golpe no país da América Central.

Bukele acusa os destituídos de interferência no Executivo e Legislativo em decisões arbitrárias e ativismo político. Jair Bolsonaro também acusa o Supremo de tolher seus poderes e os ministros são acusados de ativismo político quando de uma decisão controversa do tribunal.

Eduardo Bolsonaro aplaudiu o que aconteceu em El Salvador. Eduardo deve lamentar profundamente que seu pai não tenha poder ainda para copiar Bukele e destituir se não todos a maioria dos ministros do STF.

A postagem de Eduardo legalmente não significa nada. Simbolicamente, porém, quer dizer muito e o repúdio tem que ser sonoro para abafar qualquer tentativa semelhante aqui – tipo CPI do Judiciário e impeachment de ministros do STF. Ou o PL 4754/16 pautado na CCJ da Câmara que abre caminho para acontecer aqui o que rolou em El Salvador.