Disputa fratricida

Não sei qual o objetivo da dupla dinâmica formada por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, os nossos Pink e Cérebro, vencer a eleição de outubro não é. A fala tosca do neto do João Figueiredo sobre o voto das mulheres é uma aula gratuita de como perder uma eleição. Aliás, parece que a dupla pretende substituir Olavo de Carvalho, sem a bagagem intelectual dele nem a sua inteligência.

Mas o comportamento errático da dupla vem pelo menos desde 2025 e piorou ao comprar briga com Michelle Bolsonaro. A ex-primeira-dama está longe de ser a inocente da briga, que é uma luta por poder e quem vai liderar a direita conservadora após Jair Bolsonaro.

O problema é que brigar com a pessoa que é a chave para Flavio Bolsonaro vencer o presidente Lula nas urnas é suicídio eleitoral. Podem e devem conseguir queimar a Michelle entre os bolsonaristas fiéis, mas a turma esquece por soberba ou ignorância que não se vence uma eleição com 30% ou menos do eleitorado.

Bolsonaro teve dificuldade de conseguir votos das mulheres por seu passado rústico nas duas eleições que disputou. Venceu em 2018 apesar do “ele não”, mas não conseguiu em 2022. E Michelle é fundamental para trazer o eleitorado feminino conservador/evangélico para Flavio, mas Eduardo e Figueiredo preferem perder a eleição do que conceder esse poder a ela.

Moraes não é o Estado

O julgamento que condenou Eduardo Bolsonaro tem os mesmos vícios do julgamento que Carla Zambelli também foi condenada. Não é que ambos são inocentes.

Eduardo foi realmente nos EUA para interferir no julgamento do pai, como a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes. Zambelli mandou um hacker invadir o sistema de justiça para inserir um mandado de prisão falso contra o próprio Moraes.

O problema está na forma. Julgamento na última instância, sem direito a duplo grau (aí é o foro privilegiado que já deveria ter acabado ou limitado). Mas o pior é o ministro Alexandre de Moraes julgando casos que está ligado diretamente.

Foi assim com a Zambelli, que a justiça italiana negou um dos pedidos de extradição por concluir que o julgamento dela não teve a imparcialidade necessária. Foi com Eduardo, no julgamento de seu pai (e os outros condenados) que também foi repleto de graves violações e com o pessoal do 8/1.

Para quem preza garantias fundamentais e o devido processo legal, não aceita um juiz julgar um desafeto ou um indivíduo que fez algo contra ele. Garantista de verdade não olha a capa do processo.

Obsessão com cálculo político

Alexandre de Moraes pegou uma obsessão patológica por Jair Bolsonaro. A última é determinar em 24 horas que a defesa explique a fala de Eduardo na CPAC em que mandaria um vídeo ao ex-presidente.

Moraes proíbe o uso de celular/internet e entrevistas por parte de Bolsonaro, inclusive por terceiros. Medidas que vão além do permitido na legislação e da lógica.

O que Moraes quer é deixar Bolsonaro completamente incomunicável em todas as mídias, que seus filhos e aliados não explorem politicamente o legado dele, uma estratégia para tentar asfixiar o bolsonarismo.

O Bolsonaro cometeu crime contra a democracia nas reuniões com os comandantes militares procurando formas de anular o resultado eleitoral de 2022 (o 8 de janeiro foi só uma confusão generalizada que resultou em quebradeira), mas o que Moraes faz não é justiça.

O presente de Eduardo e Trump a Lula

Donald Trump e Eduardo Bolsonaro deram um presente ao presidente Lula. Ao impor tarifa ao Brasil e sanção a autoridades brasileiras impulsionaram a popularidade de Lula e uma bandeira ao governo: defesa da soberania.

Junto com a queda nos preços dos alimentos o ataque americano ao país articulado pela família Bolsonaro fizeram o brasileiro ficar ao lado do seu líder, como aconteceu nos países que Trump tentou interferir politicamente. E quem não rechaçou sem tergiversar o ataque dos EUA também foi afetado.

A maioria ainda reprova o governo Lula, mas a rejeição vem caindo e o risco à reeleição do presidente também.

Eduardo foi para uma missão suicida que acabou por favorecer Lula, trucidou sua carreira política e fez a situação jurídica do próprio pai ficar mais complicada.

Bolsonarismo se empolgou com El Salvador

O presidente de El Salvador se aproveitando da maioria que conseguiu no Congresso destituiu membros da Câmara Constitucional do Supremo Tribunal de Justiça – equivalente ao nosso Supremo Tribunal Federal – e o procurador-geral. Sem tergiversar, com argumentos idênticos usados no Brasil, o presidente Nayib Bukele aplicou um (auto) golpe no país da América Central.

Bukele ausa os destituídos de interferência no Executivo e Legislativo em decisões arbitrárias e ativismo político. Jair Bolsonaro também acusa o Supremo de tolher seus poderes e os ministros são acusados de ativismo político quando de uma decisão controversa do tribunal.

Eduardo Bolsonaro aplaudiu o que aconteceu em El Salvador. Eduardo deve lamentar profundamente que seu pai não tenha poder ainda para copiar Bukele e destituir se não todos a maioria dos ministros do STF.

A postagem de Eduardo legalmente não significa nada. Simbolicamente, porém, quer dizer muito e o repúdio tem que ser sonoro para abafar qualquer tentativa semelhante aqui – tipo CPI do Judiciário e impeachment de ministros do STF. Ou o PL 4754/16 pautado na CCJ da Câmara que abre caminho para acontecer aqui o que rolou em El Salvador.