Movimento dos Sem Candidato

Os organizadores das manifestações do dia 12/9 colaboraram para Jair Bolsonaro chegar ao Palácio Planalto. As pessoas têm todo o direito de se arrepender, mas querer abreviar o mandato conquistado legitimamente nas urnas é ir contra a democracia. Isso não é minimizar os riscos que o bolsonarismo causa as instituições e a própria democracia. Mas querer tira-lo sem ser nas urnas também é uma ameaça à democracia. Um processo de impeachment é dolorido e o último deixou sequelas irremediáveis. Falta tão pouco para as eleições de 2022.

No lugar de mais um traumático impeachment (chance pequena de acontecer) por que não forjar um candidato da tal terceira via? Hoje quem é nem Lula, nem Bolsonaro faz parte do Movimento dos Sem Candidato. Não é fácil achar um candidato para ocupar o espaço de terceira via. De todo modo, o tempo é exíguo e a eleição tende a ser polarizada entre Lula e Bolsonaro. O MBL (Movimento Brasil Livre) quer derrubar Bolsonaro porque acha que só assim poderão derrotar Lula com qualquer candidato.

A mais recente pesquisa (PoderData) mostra que a matemática não é simples. Lula ganha com sobras de João Doria (50% x 18%) e do apresentador José Luiz Datena (54% x 17%). No confronto direto contra Bolsonaro, Lula tem 55% a 30%. Bolsonaro perderia para Ciro (37% x 41%), Doria (32% a 39%) e até para Datena (32% x 33%). Pelo retrato de momento seria menos difícil derrotar Bolsonaro do que Lula. Ou surgir outro Sergio Moro para condenar Lula e o tribunal de segunda instância ratificar a condenação em tempo recorde.

De novo, a vontade do eleitor seria rasgada (Lula liderava também a corrida presidencial de 2018). Dessa vez não tem Lava Jato para impedir Lula de conquistar o terceiro mandato.

Derrota da PEC do voto impresso deixa pronta narrativa de fraude e placar sepulta impeachment

A votação da PEC do voto impresso deixou duas certezas que foram duas vitórias para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Deixou pronta a narrativa de fraude em caso de derrota de Bolsonaro, inclusive, o presidente voltou a desqualificar o sistema eleitoral após a votação da PEC, mesmo tendo se comprometido com Arthur Lira a não falar mais do assunto se ele levasse para o plenário – a PEC foi derrotada na comissão.

Bolsonaro voltou a acusar, sem provas, fraude na eleição que venceu em 2018. Foro de São Paulo e a esquerda teriam comprado 12 milhões de votos que iria para ele e foram desviados para Haddad, com a complacência do TSE. Esse pessoal para bolar teoria conspiratória rivaliza com autores de novelas, filmes, etc.

É quase certo que Bolsonaro vai copiar Donald Trump e não aceitará a derrota.

Os 229 votos a favor da PEC deixaram explícito que um processo de impeachment teria como destino o arquivo neste momento.

Mas também mostrou como o centrão não é confiável mesmo tendo recebido os ministérios da Casa Civil, Cidadania, Sec. de governo mais outros cargos do segundo escalão e verbas via emendas parlamentares. Somando apenas o núcleo central do centrão, a maioria foi contra a PEC do voto impresso.

Bolsonaro e a escolha para PGR

Se tem um ponto positivo do governo de Jair Bolsonaro foi ele ter rompido com a lista tríplice inconstitucional da Associação de procuradores da República para PGR.

Ao nomear Augusto Aras, Bolsonaro fez uma revolução no MPF. Rompeu com o denuncismo lavajatismo de Rodrigo Janot.

Alega-se que um Procurador-geral fora da lista perde a autonomia e independência, o próprio Aras abriu inquéritos para investigar condutas do presidente e se posicionou contra o governo em vários ações no STF.

O procurador-geral tem que ser independente, óbvio, inclusive da classe que pertence. Ou vira líder sindical que só defende interesses da classe.

O plano golpista bolsonarista

Bolsonaro planta para colher o seu 6 de janeiro

Após mais um ataque golpista de Jair Bolsonaro ao sistema eleitoral brasileiro, dizendo que teve fraude na eleição de 2014, o candidato a vice-presidente de Aécio Neves, Aloysio Nunes, precisou dizer o óbvio: “perdemos porque faltou voto”.

Pressionado, Aécio saiu do silêncio para dizer que não acredita em fraude em 14, mas defendeu a adoção do voto impresso. Substituir as urnas eletrônicas de primeira geração por novos modelos, disse. No fundo, Aécio tem no mínimo dúvida. Fica feio para o derrotado desconfiar do resultado. Já Bolsonaro acusa fraude na própria eleição que venceu.

Derretendo nas pesquisas, pressionado no lado jurídico pela CPI da Pandemia, politicamente com a ameaça de debandada do centrão do seu governo, o fantasma dos segredos da família aparecendo, Bolsonaro planta a semente da discórdia já projetando a sua derrota em 2022. Imitando Trump. O atual presidente da República vai mais longe que o americano e ameaça o calendário eleitoral se o voto impresso não valer em 22.

A invasão ao Capitólio deixou mortes e a página mais vergonhosa na democracia americana. Bolsonaro planta para colher o seu 6 de janeiro em caso de derrota e, como disse, vai mais longe ameaçando não ter eleição “sem eleições limpas”. Veremos se terá força no seu plano golpista. Deve estar contando com o suporte das Forças Armadas no seu intento (lembrando que o bolsonarismo está arraigado no seio das PMs e na baixa patente das Forças Armadas). A dúvida é se os militares vão dar apoio ao levante bolsonarista.

Teste para as instituições brasileiras

Gravíssimo os fatos que estão vindo a público. Se ficar comprovado que o presidente nada fez ao saber de indícios fortes de corrupção no ministério da Saúde ou pior tentou abafar o caso, isso sim é motivo para abrir o processo de impeachment.

No decorrer do processo veremos se forma o mínimo de votos necessários para afastar Jair Bolsonaro da presidência. Depende fundamentalmente de como a oposição vai se articular no Parlamento, a pressão popular pelo impedimento e principalmente o papel do vice-presidente no processo. A articulação para o futuro governo depende do vice Hamilton Mourão romper com Bolsonaro e se o centrão vai deixar de apoiar o atual governo e afiançar o governo de transição.

Um novo processo de impeachment cinco anos do último e faltando um ano para a eleição presidencial é traumático. Mas depende do desenrolar dessa história e a CPI da Pandemia vai ter papel de destaque para esclarecer se o presidente cometeu algum crime de responsabilidade ou comum. Será um grande teste para as instituições do Brasil.